Eu comprei o livro O Drible, de Sérgio Rodrigues ( São
Paulo: Companhia das Letras, 2013) por indicação de Tostão, reiterada por Juca
Kfuri. Dizia ser um belo livro, com uma abordagem inovadora sobre o futebol. E
o é, sobretudo por sua qualidade literária. É uma estória trágica entre um pai
e filho, envolvidos por Édipo, honra, vingança, crença e maldade. O pai,
Murilo, sai de uma pequena cidadezinha e chega ao Rio de Janeiro em 1960. Vai
parar no Jornal dos Sports, de Mário Filho, Nelson Rodrigues e outras feras do
jornalismo esportivo. Integra-se ao grupo e se transforma em um jornalista de
sucesso. Vem o golpe de 1964 e ele o apoia sem problemas. Casa com a linda
Elvira, baiana, amiga de Pierre Verger – vocês já viram que todo mundo na Bahia
era amigo de Verger (rs,rs) – que tem um filho e se suicida. Da mesma
cidadezinha de onde veio Murilo, aparece um jogador excepcional, Peralvo. Filho
de mãe-de-santo, ele possui o dom da antecipação, fundamental no futebol. O
craque vive um segundo na frente. Algo que só temos em Kopa, Di Stefano, Didi,
Garrrincha, Pelé, Zico, Zidane, Maradona, Messi, jogadores capazes de possuir o
segundo da antevisão. Em 1962, chega ao Bangu, mas não tem imediato sucesso.
Após sucessivas derrotas, o técnico o coloca no time e ele estoura. Murilo o
transforma em um novo e melhor Pelé. Em confiança, Peralvo confessa a Murilo os
seu poderes sobrenaturais, com a promessa de jamais revelá-los. Murilo prefere
a manchete , não honrando a promessa. O que acontecerá a Peralvo? Já Neto,
filho de Murilo, vai para a Escola de Comunicação, cria um grupo de rock, mas
não vai longe. No apartamento herdado da mãe, vive com um amigo e dividem as
mulheres. Aos 21 anos se apaixona e o pai que o detestava, convida o casal para
um almoço. O pai rouba o grande amor de sua vida. Aos 49 anos, com mais de 20
anos afastado do pai, recebe um telefonema para visitá-lo no seu sitio. Aí,
mais uma vez, aparece o futebol e sua história. Murilo traz à tona que, assim
como a vida, uma partida não se repete. Sem a interrogação do futuro, elas
seriam de uma pobreza incomensurável. Após verem a TV e os tapes, iam pescar
traíras – só poderia ser este peixe – na represa. O filho não entendia os
encontros: esperava um pedido de perdão e a explicação sobre o suicídio da mãe.
As semanas foram passando e nada. Um dia o pai disse que havia escrito sobre a
vida de Peralvo, que nos salvaria do fiasco de 1966, se tivesse sido convocado.
Mas, um terrível desastre ocorreria com Peralvo, então jogador do Vasco, ao
fazer o gol da vitória do Santos em tabela com Pelé: o gol contra da sua vida.
Neto vai ao médico e sabe da real situação de seu pai: 2 meses de vida, no
máximo. Ao voltar ao sítio não encontra o pai em casa, corre para a represa e o
vê desacordado nas águas. Tira-o da água e tenta reanimá-lo: em vão. Esta é uma
síntese precária do romance. Ir além, sendo o final surpreendente, seria tirar
do leitor o caráter de suspense e descobertas imprescindíveis. Sérgio Rodrigues
acertou em cheio e nos deu caprichado “drible de letra”.
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