“Para onde ides vós [pobres]? Não é para a sepultura? Sim. E
os ricos, os opulentos deste mundo, para onde vão? Para a sepultura também. Ah!
Regozijai-vos então de ter para comer apenas vosso pedaço de pão, já que a
sepultura é para todos o termo inevitável, vós, porque comeis menos, chegareis
mais tarde, e, porque tereis comido menos, sereis menos comido... E quando os
ricos e os pobres estão na sepultura, existe entre eles alguma diferença? Sim,
e uma grande diferença, que é ainda em vantagem dos pobres: por uma alimentação
superabundante a galinha é engordada para ser comida pelos homens, por ela,
também os homens engordam a si mesmos, para serem comidos pelos vermes. Como
para ser comido, oh! Que triste destino!... os corpos dos ricos, sendo cheios e
carnudos, são verdadeiros festins para os vermes, enquanto para estes os corpos
dos pobres, que são apenas pele e osso, só oferecem abstinência”. (Antônio
Vieira – Sermões)
1. Introdução ao tema e ao problema.
A antropologia da alimentação, nos últimos anos, vem se consolidando
como uma especialidade antropológica bastante eclética, produzindo um conjunto
de estudos, realizados ou não de acordo com uma metodologia própria, e que
congrega abordagens de temas e problemas relacionados à comida e à cultura: a
alimentação, os aspectos nutricionais, a ecologia e sua relação com produção e
consumo alimentar, os aspectos rituais do comer, etc. Muito se tem escrito,
desse modo, sobre o ato social de comer, e, logo, sobre o fato de que esse
comer ultrapassa as fronteiras da dimensão puramente natural, e se enraíza na
dimensão da cultura, de modo tal que em torno dessa ação do “comer” o homem
construiu uma teia de significados, fundamentais no que concerne à sua vida, e
à sobrevivência de sua espécie. A evolução biológica do homem guarda estreita
relação com sua história de adaptação técnica aos constrangimentos do meio
ambiente, o modo como se deu a colonização de novos habitats, a exploração de
nichos ecológicos estranhos e, ademais, a busca de acesso a recursos ainda não
explorados. O homem, já no estágio de hominídeo, se tornou um animal onívoro,
tornando-se capaz de devorar além de vegetais outros animais, desenvolvendo
assim um sistema digestivo capaz de metabolizar diferentes tipos de alimentos.
É natural, pois, que muito se valorize, no âmbito da vida cotidiana, bem como
nos estudos antropológicos, o ato primordial de alimentar-se (observando-se o
“de comer”, “aquilo que se come” e “como se come”), e pouco se atente a seu
contraponto, ou seja, pouco inquérito haja sobre o ato de não-comer, isto é, de
abster-se de alimentos por razões pragmáticas, sejam elas médicas ou
religiosas, ou por motivos patológicos, ou apenas porque não se tem o
necessário alimento disponível. Comer e não-comer são práticas sociais que
articulam a natureza à cultura. Comemos e não-comemos porque isto faz sentido,
ou seja, a isto atribuímos um significado pessoal ou social. Meu objetivo na
presente conferência (realizada no Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA, em
novembro de 2011) é reivindicar um lugar para uma antropologia do não-comer
dentro desta antropologia da alimentação. Para alcançar tal intento pretendo
esboçar, baseado numa indiscutível e presumida relacionalidade entre comer e
não-comer, uma articulação entre diversos textos, antropológicos ou não, que
abordam a questão deste negativum cultural, que eu aqui chamo de não-comer.
Pretendo assim retorcer as idéias, até que elas nos apresentem a realidade por
um lado invertido. O não de não-comer, como aqui exposto, não deve ser visto
como uma mera negação. Para aqueles que estranham o uso do “não” seguido de
hífen para caracterizar meu objeto, o não-comer, lembro que Marc Augé
apresentou o conceito de Não-lugares, com o qual introduz sua antropologia da
supermodernidade. O ponto de partida de minha argumentação é que é a cultura
que nos diz “quando” não-comer, “onde” não-comer, bem como o “por que” e “para
que” não-comer. Como operação reversa, com relação ao comer, pode-se fazer,
portanto, as mesmas indagações, com exceção de “o quê”, já que não se tem “o
que” não-comer mesmo. Minha argumentação seguirá basicamente este propósito de
ressaltar essa ambivalência, esta dimensão negativa e positiva embutida no não-
comer, e que aqui dirá respeito ao jejum, à greve de fome, às dietas e os
regimes, assim como os distúrbios alimentares, já que as doenças são também
problemas da cultura. O não-comedor não deve ser visto, neste sentido, como o
faminto, mas como o que não tem vontade ou recusa o comer. É esta recusa ou
falta de vontade de comer que contradita as idéias de que homem é um animal
voraz por puro impulso natural, e de que toda cultura humana se constrói, tout
court, em torno da centralidade do tubo digestivo. Desse modo, comida não é
apenas alimento. Comida é afeto, gosto bendito ou maldito, e o que não-se-come
também o é. Alimentar-se parece ser condição sine qua non da natureza, da
manutenção do corpo, da prevalência da dinâmica de um metabolismo, de uma
fisiologia própria para ingerir, processar digerindo, e dispensar os resíduos.
Comer, por outro lado, é um atributo da cultura: certamente é esta que dita “o
quê”, “como”, “quando”, “para quê”, e “porque” comer. Em torno do comer, é
verdade, poder-se-ia tecer toda uma psicologia do alimentar. Com o não-comer
poder-se-ia reivindicar uma psicologia do não-alimentar. É curioso que sejam
tão comuns as queixas dos pais de que os filhos não se alimentam, de que eles
não-comem. Não-comer é um ato psicológico e físico, uma experiência interna que
nos atinge no âmago. Se um homem é o que ele come, como se diz repetidas vezes,
um homem não é aquilo que ele não-come, não-comer implica muitas e diferentes
coisas: vontade, denodo, elan, resistência e equilíbrio moral, determinação,
despojamento, etc. Desejo de comer tem como contraponto a vontade de não-comer,
mas deve-se notar, todavia, que tais termos, desejo e vontade, não são nem
simétricos, nem equivalentes. Comer para além do suficiente, se locupletar ou
se valer da justa medida para a comida, que deve ser sempre justa, depende do
nosso senso de saciedade. Até por isto o não-comer, pode ser definido por seu
caráter parcial ou total. Para explorar este lado reverso de nossa cultura, o
do não-comer, bem sabemos, seria necessário construir toda uma etnografia, o
que faria com que este campo fosse mais bem elaborado. Pistas de investigação
não faltariam aos candidatos a pesquisadores para a área designada, e por isto
mesmo formulo uma problemática particular, qual seja: qual a função do
não-comer na vida das pessoas? O que sente e como se comporta quem não-come? Quais
os mecanismos fisiológicos e psicológicos da fome e de não-comer? Como as
pessoas não-comem? Quando as pessoas não comem? Onde as pessoas não comem? E,
no caso dos interditos, o que as pessoas não podem ou não devem comer? E o que
elas efetivamente não comem? Iremos ter como pano de fundo, portanto, a idéia
de que alguns não comem podendo comer, e é este fato que nos intriga na nossa
cultura.
2. O Jejum e as dimensões espirituais e religiosas do
não-comer.
Uma primeira aproximação nos aponta um aspecto curioso que
respeita a relação entre comida e a religião: comer excessivamente leva ao
pecado, jejuar conduz à virtude, à santidade. Abstinência de comida é fonte de
purificação, o jejum fortifica, aniquila o mal. O jejum, a abstinência
alimentar, é uma privação parcial ou total de alimentos. Em geral é feito por
motivos religiosos, assim como, também, por motivos terapêuticos ou higiênicos.
O sentido mais pleno do jejum, todavia, é o espiritual. Quase todos os profetas
alcançaram revelação, que é o fundamento da religião, através da abstinência
alimentar. No judaísmo o jejum assumiu forma de Iom Kipur, o mais que
importante Dia do Perdão. A relação com a comida também se inscreve na cultura
religiosa judaica através da dieta kasher. Esta implica em práticas alimentares
complexas, e que se articula a uma conjunto fixo de leis e costumes, para o
qual é requerido um adestramento fiel dos judeus. Muitas são, portanto, as
regras do não-comer que aqui estão explícitas e implícitas. Na cultura cristã a
relação entre o comer e a espiritualidade é fundadora. Repare-se, por exemplo,
que o primeiro pecado é uma decorrência da desobediência a uma restrição
alimentar. Deus disse que era para não-comer daquela fruta. E o pão nosso de
cada dia...? e após quarenta dias sem comer, Jesus, ao ser tentado por um bem
alimentado Satanás, a transformar a pedra em pão, responde de que nem só de pão
vive o homem, mas da palavra de Deus. Comer e não-comer se desdobram em ações
sacrais no cristianismo. No catolicismo são conhecidos, ademais, os poderes das
Santas jejuadoras, anoréxicas avant la letre (são tantas, como Santa Rosa de
Lima, Santa Catarina de Siena, Santa Colomba de Rieti, Santa Catarina de
Gênova, Santa Verônica, Santa Maria Madalena de Pazzi e Santa Clara de Assis). Retomaremos,
mais à frente, o imaginário cristão sobre o não-comer, porque ele é
constituinte de nossa cultura. Por ora, passemos então em revista o islamismo,
onde o jejum ritual é um dos pilares da religião, sendo obrigado para o
muçulmano o resguardo alimentar durante o Ramadã, o mês de agosto. Os outros
pilares são: a recitação e aceitação da crença (Shahada); orar cinco vezes ao
longo do dia (Salah); pagar esmola (Zakah); fazer a peregrinação a Meca (Haj)
se tiver condições físicas e financeiras. Deus considera o jejum, de acordo com
o profeta Maomé, como a melhor de todas as orações, justamente porque somente
Ele e o fiel é que sabem sobre a sua veracidade do cumprimento de seu voto. A
palavra Ramadã encontra-se relacionada com a palavra árabe ramida, “ser
ardente”, possivelmente pelo fato do Islão ter celebrado este jejum pela
primeira vez no período mais quente do ano. A abstinência é observada da
alvorada até o por do sol, o que também, neste período, se aplica às relações
sexuais. O crente deve não só abster-se dessas práticas, como também não pensar
nelas e manter-se concentrado em suas orações e recomendações a Deus. Além das
cinco orações diárias, durante esse mês sagrado recita-se uma oração especial
chamada oração noturna.O jejuador deve abster-se de tudo que vai contra a regra
religiosa, pois o jejum é visto como uma grande prática capaz de trazer
componentes de disciplina e da doutrina, tanto espiritual como moral. A ação
não se limita somente à abstinência de comer ou beber, mas também de todas as
coisas más, os maus pensamentos inclusive. O jejuador, como regra, deve ser
indulgente se for insultado ou agredido por alguém, deve evitar todas as
obscenidades, ser generoso, bem mais do que nos outros meses, assim como
aumentar a leitura do Alcorão. No budismo, o jejum como meio para atingir
compreensão espiritual foi amplamente usado, mas algumas correntes defendem a
substituição do jejum pela meditação, como meio para atingir a compreensão
espiritual, o nirvana. Ou seja, todos os modelos de religião de algum modo
trabalham a comida em demasia como pecado, por um lado, e a abstinência dela, o
não-comer, por outro, que é visto como um fator de santificação, de
sacralização, como instrumento de ascese. Mas se para todo pecado existe um
castigo, ou seja, uma forma de expiação, para os delitos associados aos tabus
alimentares, também existem forma de contrições exemplares. Exceder-se no
comer, aproveitar-se em demasia da abundância de alimentos, é visto na nossa
cultura religiosa como um pecado que está associado não só a gulodice, como
também a intemperança (onde a questão do poder e do controle pessoal está
implicada) e a embriaguez. É curioso que a gula e a luxúria tenham em comum a
expressão “comer” como designação do móvel do pecado. Instintos humanos essenciais,
a fome e o desejo sexual, são não apenas necessidades primárias, mas também
prazeres inqualificáveis. Comer é saborear, não-comer é privar-se do gostoso.
Do comer, logo, depende a sobrevivência da nossa espécie. Comer é assim uma
metáfora para uma conjunção carnal, para usar outra metáfora, também de caráter
alimentar. Alguém comer alguém é possível no plano sexual, mas interdito no
sentido alimentar. Vide as restrições ao canibalismo, mesmo quando ele é
indispensável à sobrevivência de alguns, ou seja, mesmo quando ele é moralmente
aceito por alguma razão grave. É por isto que a gula, o comer acintosamente e
sem sabedoria, tornou-se um delito religioso capital, ou seja, tornou-se um
pecado que conduz a outros pecados. Comer em demasia, sobretudo, é condenável
religiosamente, e é um delito que merece o fogo do inferno. Na cama e na mesa,
comer você pode, mas não deve se aproveitar disto não. Esta é, portanto, a
mesma raiz do pecado. É por esta imagem da transgressão através da fartura
quase grotesca, que a modernidade vai introduzir os argumentos da culpabilidade
moderna dos gordos, como veremos a seguir. Porém, outro aspecto relevante desta
relação entre não-comer e religião diz respeito aos interditos alimentares. Com
efeito, não respeitar condutas alimentares, quando sancionadas religiosamente é
grave delito moral. Note-se agora, portanto, de que toda cultura religiosa
necessariamente tem um repertório de interditos alimentares. São quizilas,
quando não abominações, evitações. Restrições a determinadas comidas são
preceitos absolutamente funcionais. Eles funcionam por alguma razão, cumprem um
papel importante nas crenças, nos rituais, nas organizações religiosas. As
quizilas ou Euós, aliás, os tabus e preceitos alimentares das religiões
afro-brasileiras, já foram exploradas corajosamente por nossos etnólogos, que
as situam num contexto de transgressão, de reparação e da organização de um
mundo religioso que tem uma peculiar dinâmica. As coisas proibidas de comer (sú
Dudu), são distintas das coisas proibidas de fazer. Para as primeiras são
fixados tabus e para as segundas preceitos. No caso das religiões judaicas e
cristãs as abominações indicam objetivamente restrições ao comer. O Levítíco e
Deuteronômio, foram excepcionalmente explorados por Mary Douglas na sua obra
Pureza e Perigo, onde ela conclui que a objeção, ou as abominações a comer
determinados animais (muito engraçada é a taxonomia explicitada pelo
legislador: animal de casco fendido, ruminante, marítimo de couro e não
escamas, etc.) se enquadram num quadro geral de santificação, que é operado
heuristicamente a partir dos conceitos de puros e impuros. Por fim, merece ser
comentado, como um elemento peculiar desta cultura do não-comer com motivação
espiritual, aquilo que se chama de inédia, ou seja uma suposta possibilidade de
sobreviver sem comer. Prana, assim como a luz solar, são tidos como repositores
de energia. A comunidade Vivendo de Luz reúne mais de 450 seguidores na
Internet. Pessoalmente conheci pessoas que passaram pelo processo de 21 dias,
desenvolvido por Jasmuheen, que leva à abolição da comida, o que é visto como
uma virtude quase que mágica. Crenças e eficácia da crença, à parte, este é um
prato bem nutrido esperando por antropólogo disposto a fazer mais observação
participante que participação observante, frente ao não-comer.
3. Greve de fome e fisiologia da fome.
Não se pode adentrar no tema do uso político do não-comer
sem questionar o valor moral que tem a fome para nossa civilização e
contemporaneidade. A fome gera um sentimento moral de repulsa, porque um dos
maiores fantasmas para a humanidade é justamente a não provisão de alimentos.
Seus efeitos são deletérios, e em uma escala maior induzem, quase sempre, a um
nível de desorganização que torna as sociedades insustentáveis. Multidões
famélicas são perigosas. Tornam-se turbas que encenam as fatídicas danças da
morte... O que são nossas classes perigosas senão a população relegada a
sub-alimentação, a uma dieta insustentável? De acordo com a FAO, havia no
mundo, segundo dados do último ano, 1,017 bilhão de famintos. A maior parte
estaria na Ásia e no Pacífico (642 milhões), na África (265 milhões), na
America Latina e Caribe (42 milhões) e também nos países desenvolvidos (15
milhões). É a mesma fome, se diz alhures, que faz a fortuna dos especuladores
que ganham operando o estoque, a oferta e a procura de alimentos. Mas, que
significa não-comer num mundo que tem fome? Visto numa perspectiva normal,
não-comer é uma opção moral, espiritual, política, terapêutica, e se realiza na
condição de que um determinado objetivo seja alcançado. A sensação de fome é
atroz para quem é acostumado a comer. Em tese é uma dor, lancinante, aguda e
surda, localizada na região superior do ventre. Ao mesmo tempo é uma vontade
furiosa, intestina, de querer comer. A fome é diferente da sede, todavia,
sobretudo porque essa última se configura pela secura da mucosa da boca, além
do desejo de ingestão de líquidos. A fome prolongada traz, paradoxalmente,
alterações metabólicas que reduzem e anulam o sofrimento do faminto. Na falta
de água, contudo, a língua se cola no céu da boca, aumentando drasticamente a
sensação de mal-estar. Os mecanismos da fome podem ser observados primariamente
pela baixa de glicose, e outras substâncias no sangue, e pelas contrações
dolorosas do estômago vazio. Tendo em conta a falta de alimento, o organismo
libera hormônios para manter um funcionamento equilibrado. A sensação de fome é
difusa, em parte é contração intestina, em parte é sofrimento psíquico. Tão
grave é a noção de fome para a humanidade que sua representação inscreve-se no
nosso imaginário. Penúria de alimentos é um fantasma que assusta e assombra
nossa civilização. O medo da miséria e da fome marca nossa história. Por isto
mesmo, numa escala global a imagem da fome provoca uma contrição moral, é prova
da falência de nossa civilização, num nível universal. A fome é, sempre, uma
questão política, de Estado, de nação, de sociedades. Dar de comer a quem tem
fome é sabidamente obra da misericórdia humana. O não-comer tendo fome e
alimento, todavia, ganha notoriedade, historicamente, em contextos políticos
que lhes dão uma inusitada singularidade. Dois deles merecem ser aqui
examinados, haja vista o que eles trazem de contribuição a propugnada
antropologia do não-comer: um é a fome como punição judiciária, outro é a greve
de fome como recurso de pressão política. O não-comer, como forma de punição,
aparece sem igual no livro de Carlos Sueiro, El Arte de Matar, dedicado ao uso
social de penas capitais. Para ele, deixar morrer de fome a um réu foi
tradicionalmente um meio de execução fácil e econômico. Da Roma antiga a China
medieval, os “fossos de fome”, profundos como os infernos, foram operados
regularmente. Calcula-se, aliás, que cerca de quinhentos mil dos três milhões de
judeus executados em Auschwitz morreram de inanição. Mas o gênio humano nesta
área penal, diga-se passagem, deu prova de engenho sem igual ao realizar na
punição uma forma de tormento único, pelo qual passaria o executado. O objetivo
era de que ao ser privado de alimento, não se morresse de fome imediatamente,
mas numa agonia e sofrimento lento e espetacular. Na Grécia, por exemplo,
alguns ímpios eram condenados a morrer de fome, sentados diante de mesas
abundantes, e de banquetes suntuosos. Na Inquisição, também, a “máscara da
fome”, era um aparato metálico que cobria o rosto e impedia que o maxilar se
movesse e, logo, o réu de se alimentar. Também aqui o executor se comprazia em
apresentar saborosos manjares e suculentas bebidas frescas. Vale mencionar que
execuções também foram realizadas obrigando os réus a comer: a ingestão de
venenos, por exemplo, de bambus que fermentam e se expandem no estômago, de
ingestão de frutas em demasia, ou de alimento salgado que leva a uma alucinante
sede. A greve de fome, por seu lado, se encaixa como parte de uma doutrina
política que ficou caracterizada como “método de intervenção não violento”, e
que inclui, também, a auto-exposição aos elementos, o jejum, o jejum de pressão
moral, o jejum satyagrahica (postulado por Gandhi como uma palavra que
significa “estar conectado a verdade”). Reivindicação de direitos atingidos,
pressão política, a greve de fome tem uma peculiar força moral, já que não
afeta diretamente o alvo da insatisfação. Deixar alguém morrer de fome é gesto desonroso,
vexaminoso socialmente, e inadmissível por força de muitas convenções políticas
das quais os Estados nacionais são signatários.
4. As preferências alimentares, as dietas e os regimes.
Dietas, moderação e nutrição são palavras pululantes do nosso
repertório lingüístico moderno. A obsessão de nossa cultura por dietas e
regimes talvez seja, em parte, decorrência da nossa forte influência religiosa,
e de certos modelos estéticos com os quais moldamos nossas modernas medidas
corporais. A ditadura da magreza, o glamour com que são divulgadas as práticas
alimentares das celebridades, os aspectos do mercado, com suas ofertas e
demandas de alimentos, a melhoria do poder aquisitivo com a inclusão social de
contingentes cada vez maiores de pessoas e o conseqüente aumento do consumo
alimentar, promoveram transformações nos últimos anos que se refletem nos dias
atuais. Vamos dizer que a culpabilização dos gordos é um dos dispositivos que
levou a medicina a desenvolver especialidades que dão inteligibilidade aos
efeitos do comer em demasia. Farmacologia endocrinológica, cirurgia bariátrica,
balões acoplados ao estômago para dar a ilusão da comida, anéis e ganchos, são
instrumentos mirabolantes que fazem face a impossibilidade de alguns não
conseguirem não-comer. Os gordos, que foram outrora uma espécie de ofensa a
Deus, hoje são apenas afronta a nossos padrões de saúde, e beleza, é claro. A
propósito disto, aliás, vale mencionar um dos sermões do nosso querido padre
Vieira, feito no Maranhão, transcrito e encontrado na obra de Delumeau (2003,
p. 253), e referido na epígrafe deste texto, que mostra o lado macabro da
gordura. As dietas, todavia, não foram feitas exclusivamente para os gordos.
Porém, para esses numa dieta não existe somente o que se come, mas também tudo
o que não se deve comer. Todas as dietas, construídas no nível da cultura
popular, são dietas de engorda. Não é à toa, portanto, que a maior parte dos
obesos se encontra nas classes menos favorecidas. A exceção me parece ser a
dieta chinesa, na qual eles comem de tudo, mas, mesmo assim, são delgados. Até
quando não sabemos. É voz corrente que a palavra dieta indica uma maneira de
conduzir alterações alimentares, que visam fins permanentes. Além disso, toda
dieta se baseia num repertório de itens que podem ser comidos, enquanto outros
não são recomendáveis, logo são não-comestíveis. É nossa cultura que ordena
“fechar a boca”, e é ela que constrange a abri-la, também. Dieta, entretanto,
hoje ganhou o apelido de reeducação alimentar, onde se deve aprender mais a
não-comer do que propriamente a comer com liberdade. Já regime pode ser para
emagrecer, mas também pode ser para engordar. Regime é basicamente a opção pelo
aumento ou redução alimentar num determinado tempo, visando determinado fim.
Perder peso, por exemplo, deve ser obtido ao fim do período de controle
alimentar estabelecido, e são estritas as regras do não-comer. Regime implica
quase sempre fronteiras psicologias nas quais são equacionadas as relações do
tempo com o peso, ou a saúde, daquele que faz regime. É curioso, aliás, o
dinamismo circular dos regimes (e nisto pode-se ver o ritualismo e as crenças
envolvidas no não-comer), que se desdobram em dias, semanas, meses, e, por isto
mesmo. Lembrem-se do efeito da segunda-feira, como dia ideal, ou não, para
começar um regime. Por fim, vale mencionar que os inibidores de apetite são,
certamente, um dos aspectos mais curiosos que o interessado na antropologia do
não-comer pode explorar. Apetite, não custa lembrar, indica as preferências
alimentares que cercam certos padrões de comida, que uma pessoa pode encontrar.
Comidas apetitosas são irrecusáveis e, portanto, se tornam fortes apelos contra
as regras do não-comer.
5. Os distúrbios alimentares.
Anorexia, bulimia, obesidade são palavras-chaves do mundo
moderno. Pautamos nossa vida alimentar em padrões de comportamento
culturalmente fixado. O comportamento alimentar implica dimensões fisiológicas
e nutritivas, psicodinâmicas e afetivas, além da dimensão relacional, que só o
uso da boca implica (o mal não é apenas o que sai da boca do homem!...). Por
isso o comportamento alimentar é complexo, e de importância central na vida
cotidiana. Enquanto conduta, a ação de alimentar-se, é motivada de maneira
consciente a partir das sensações básicas de fome, de sede e de saciedade,
geradas, controladas e monitorizadas pelo organismo como um todo. O centro de
saciedade, entretanto, está no cérebro, na região do hipotálamo, onde a
saciedade se situa mais localmente, e em outras estruturas límbicas e
corticais. Anorexia, em grego, significa falta de apetite. Anorexia nervosa se
caracteriza pela distorção da imagem corporal, pela busca implacável de magreza
através da perda de peso auto-induzida, seja por abstenção alimentar ou por
comportamentos purgatórios, também auto-induzidos, ou exercícios excessivos e
extenuantes, além do uso de anorexigeneos ou diuréticos. Como um grave estado
nutricional o corpo padece de alterações endócrinas, metabólicas e
eletrolíticas. Já a bulimia nervosa caracteriza-se pela preocupação permanente
com o comer e por um desejo irresistível por comida, chegando a condição de
hiperfagia. Estes fatores se aliam a preocupações exclusivas e intensas com o
controle do peso corporal. Por fim, em relação à obesidade deve-se lembrar que
esta é uma condição complexa, e, em geral, determinada tanto por fatores
genéticos, de desenvolvimento psicológico, de família, de classe social, assim
como de cultura. A obesidade associa-se a elevadas taxas de morbidade e de
mortalidade. Se no passado era um pecado que levava a outros pecados, hoje é
uma “doença” que leva a outras doenças. Deixarei de lado os problemas culturais
concernentes a obesidade, faço isto considerando que a trajetória dos gordos na
nossa história varia de acordo com os momentos peculiares da racionalidade
humana, haja vista que eles evoluíram de um estigma para uma situação
distintiva de orgulho, sobretudo numa realidade em que se busca incontinente as
recompensas deste mundo mais do que de qualquer outro, inclusive o do além.
Problemas de saúde pública, como é a obesidade, tornam-se, eventualmente,
graves problemas econômicos. Reivindicam, por outro lado, tomadas de posição da
cidadania, sobretudo quando direitos são ofendidos (é o caso do uso de duas
cadeiras por gordos no avião, ou cadeiras para gordo no cinema), por força de
uma situação que também é dada pela cultura. Afirmarei, desse modo, que o
dilema para os obesos não é certamente o comer, coisa que aparentemente ele faz
com muita naturalidade, mas sim o não-comer num mundo em que se oferece
publicitariamente o consumo do comestível. Fome e sensações desagradáveis, de
modo geral, são percebidas como coisas equivalentes, ou seja, o obeso
falsamente percebe como sendo fome todo e qualquer mal-estar. Paradoxalmente,
até a culpa por comer dá fome. O obeso não para de comer, pelo que nos diz a
psiquiatria, porque ele tem uma disfunção dos mecanismos de saciedade. Não vou
insistir, todavia, em elaborar aqui uma argumentação médica sobre os distúrbios
alimentares, e em particular sobre a anorexia e a bulimia, além da obesidade.
Pretendo nessa sessão tecer algumas considerações, baseado em fontes
antropológicas, sobre como estas doenças se encaixam num contexto de cultura.
Para tanto vou apontar aqui para um curioso livro escrito por René Girard. Trata-se
do texto “Anorexia e desejo mimético”, no qual o antropólogo exercita sua
teoria do mimetismo sobre esta perturbação alimentar, que ele julga atingir
proporções epidêmicas. Para ele a cultura mais obcecada pela comida, em toda
história ocidental, é a nossa. Vivemos num mundo em que comer demasiado e não
comer o suficiente são duas maneiras opostas, mas indissociáveis, de fazer face
ao imperativo da magreza que domina o imaginário coletivo. Vivemos, então, a
“Fobia universal das calorias”, e a comida será sempre a droga menos perigosa
para nossa saúde. Para Girard “nossos pecados estão escritos na nossa carne e
devemos expiá-los até a última caloria, através de uma privação mais severa do
que a que uma religião alguma vez impôs aos seus adeptos”. Eis o tempo do
não-consumo ostensivo, no vestuário assim como na alimentação. Eis o tempo da
competição e da rivalidade mimética: “No mundo desenvolvido as forças que nos
levam a consumir são tão fortes quanto as que nos levam a jejuar. O consumo
excessivo é favorecido pela enorme pressão publicitária e pela abundância de
comida barata, bem como pelo desaparecimento de todos os impedimentos
religiosos e éticos”.
6. Conclusão
Tentei esboçar nas páginas precedentes uma provocação, que
eu suponho séria, sobre um tema antropológico que, acredito, merece um valoroso
empenho de investigação. Mas o que pude oferecer aqui foi apenas um aperitivo,
aquilo que deve abrir o apetite, porque saber e sabor são palavras que guardam
uma mesma origem. Ou seja, basicamente tentei chamar atenção de que
determinados aspectos “negativos” da nossa cultura podem ser abordados a partir
de certa positividade e o não-comer é um deles. Relativizar as coisas faculta
isto e acredito que o efeito disto seja um pouco irônico ou engraçado, mas
reafirmo o caráter austero de minhas colocações. Não pensei em convencer quem
quer que seja a não-comer, mas tentei demonstrar de que o não-comer está
presente no nosso cotidiano, nas notícias dos jornais, na televisão, na
internet, etc. Ou seja, não-comer é um elemento importante na história humana.
Enfim, para concluir, vou evocar aqui a contribuição literária ao não-comer na
singularidade de Kafka. Ele escreveu o enigmático livro “O artista da fome”, no
qual narra a história de um último jejuador de um destes espetáculos de
horrores que povoavam o mundo, no século XIX. No conto, o jejuador morre de
inanição, mas por uma razão absurda: não encontra o alimento que lhe dá
apetite. Deduzo, aliás, de tudo que foi posto, que comer bem não é comer muito,
é comer melhor. E comer melhor só é possível não-comendo, também.