16 agosto, 2014

Histórias do Futebol da Bahia

Uma rica história possui o futebol da Bahia. Apesar de, até então, ter sido esquecido pela Academia baiana, agora, graças ao espírito empreendedor da Diretora da EDUFBA, Dra. Flávia Goulart, nasceu a coleção É Futebol, iniciada com 4 livros, que serão lançados em breve, e serão o tema deste texto.

       Gingas e Nós. O Jogo do Lazer na Bahia” -  Jeferson Bacelar


Já se passaram 25 anos quando este livro foi realizado. Em 1991, ele foi publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado, com um generoso prefácio do amigo Antonio Risério. O futebol e a Boca do Rio, um bairro popular de Salvador, foram e continuam a ser minhas grandes paixões. O futebol, óbvio, minha maior fonte de lazer e onde encontrei grandes amizades, muitas – exceto as que já estão batendo um baba lá no Orum – mantidas até hoje; a Boca do Rio, por ser um local paradisíaco na minha juventude e mesmo na maturidade, com grandes amigos de futebol e farras. Como eu digo no livro, bons companheiros. Na  época, excetuando Roberto da Matta e uns poucos autores, pouco existia sobre futebol, e o que existia tratava do futebol profissional. Eu resolvi escrever sobre o “baba” (a pelada carioca e outras denominações pelo Brasil afora) na Boca do Rio. Terminou sendo um misto de antropologia urbana e do futebol. O bairro, a cidade, discriminação de classe e raça, luta e conquista, violência, festa, sofrimento e alegria. O baba é aberto a muitas leituras, onde a cultura pode aparecer como reprodução social e resistência. O baba é duro, como é dura a vida, onde os trabalhadores, plenos de derrotas e frustrações na vida cotidiana, descobrem nele, a possibilidade de serem vitoriosos e de se realizarem pessoalmente. Nessa edição, além de um mais que generoso prefácio de Cláudio Pereira, aparecem mais fotos do baba e da festa realizada em minha homenagem  pelo livro, além de um posfácio, sobre alguns aspectos concernentes ao livro e ao futebol, além de lembranças dos jogadores e amigos da Boca do Rio.

“Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924) – Henrique Sena dos Santos


Eu sempre pensei que a Bahia, por sua decadência política na Primeira República, ausência de dinamismo econômico no período, além de sua configuração econômica, tinha especificidades que se refletiam na formação e desenvolvimento do futebol. Estava certo. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde a presença de negros e pobres só ganha participação maior, e consistência, na década de 1920, na Bahia, a Liga dos Brancos, racista e classista, não dura nem 10 anos. Criada em 1904, cedo com a participação de clubes populares, os clubes de elite começaram a retirar-se. Assim, em 1913, os pretos, mestiços e pobres, não deixaram o futebol morrer, criando uma outra liga. Os jogos eram no Campo da Pólvora e no Rio Vermelho, então, em 1921, as elites pretenderam “civilizar” o futebol, inclusive criando o estádio da Graça. Os brancos “dançaram”, já era tarde, o futebol dentro e fora de campo já era do “povão”. O autor descortina a participação da Bahia no futebol nacional, apesar do menosprezo da então CBD. É aí que aparece a figura ímpar de Popó, “o preto de ouro”. É um livro sólido teoricamente, com farta documentação e rica iconografia. Henrique, com maestria, oferece uma leitura agradável, onde, assim como Popó, construiu um jogo “cheio de reviravoltas”.

“Futebol feminino na Bahia nos anos 80 e 90: fazendo gênero e jogando bola” – Enny Moraes


Se é mínima a bibliografia baiana sobre o futebol masculino, imagine-se sobre o futebol feminino. Portanto, é um marco o livro de Enny sobre o futebol feminino. De Nelson Rodrigues a João Saldanha, futebol era coisa de macho. E quando começou a aparecer o futebol feminino, vinha o outro lado do preconceito: era coisa de “sapata”. Quanto sofreram nossas meninas, como mostra esse belo livro, até que, apesar de todo descaso da CBF, o Brasil formasse uma seleção que está no ranking das melhores do mundo. A autora aborda a formação das jogadoras baianas, desde Jequié, mas em especial em Feira de Santana. Preconceito, discriminação, na família e na sociedade, muito sofrimento, até que fossem respeitadas e ganhassem credibilidade, nas conservadoras e machistas cidades do interior da Bahia. Através de histórias de vida, a autora retrata as dores e alegrias das jogadoras. E, a partir daí, a história do futebol da Bahia se entrecruza com os primórdios da Seleção Brasileira. Ganha realce a a trajetória de vida de Solange, a “Soró” (de Luciano do Vale), convocada para a Seleção Brasileira, após testes em Salvador. Uma vida de lutas, de indecisões, de uma guerreira que teve que enfrentar até mesmo a discriminação das jogadoras baianas convocadas. Precedendo a geração de Marta, tiveram contra si os baixos salários, a invisibilidade, além de absurdos da CBF. O fundamental é que foram jogadoras, como Solange, que construíram, apesar de todos os percalços, as bases para as atuais conquistas do futebol feminino brasileiro. Enny, joga um bolão com seu texto, pelo ineditismo, pelo valioso conteúdo, rigor teórico e metodológico, envolvendo e emocionando o leitor, com um mínimo de sensibilidade.

“BA-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas” – Paulo Leandro


O autor, adiciona  à sua carreira como reconhecido comentarista esportivo, a sua categoria como acadêmico. Paulo Leandro discute a institucionalização da torcida de futebol nas páginas esportivas de jornais de Salvador, Bahia, no período de 1932 a 2011. Utilizou como corpus uma coleção de 326 textos de cobertura de jogos entre Bahia e Vitória, confronto que ficou conhecido como BA-VI. Os torcedores escolhem as cores que correspondem ao time, posicionam-se em um mesmo local e, por meio do consumo de indumentária e símbolos identificados a um clube, sentem-se pertencentes à comunidade imaginada, formando uma só alma global. A torcida é identificada como um grupo capaz de alcançar uma sensação descrita pelos jornalistas como “delírio” e que corresponde a um êxtase na atitude de torcer coletivamente por um time de futebol. A bibliografia sobre torcidas no Brasil  já é ampla, do ponto de vista histórico e teórico, porém, não é o  caso da Bahia, daí a importância do livro. Com base nos resultados da pesquisa, pode-se dizer que os jornais fazem parte da realidade que institui a torcida, no sentido de agentes transmissores de informações, valores e princípios de inegável influência para a formação do perfil do grupo. Concluindo, por sua vivência no futebol, já antevê e questiona as mudanças no futebol e nas torcidas no reinado das “arenas”. É um livro para os rubro-negros e tricolores, onde, com densidade, o leitor, quase sempre torcedor, também chegará ao “êxtase”.


Historiografia da Alimentação dos Baianos - Parte I

A alimentação, por sua importância para a sobrevivência das populações, de forma mais ou menos  acentuada,  estará sempre presente na produção dos historiadores. Assim, é que, embora poucas sejam as obras específicas sobre a alimentação dos baianos, ela estará presente em muitos outros  trabalhos de variada temática. O meu propósito será dar ciência ao escrito que conheço sobre o assunto, com  as edições de forma cronológica e de maneira tão somente descritiva.
Thales de Azevedo é o autor que aparece inicialmente com o seu clássico e premiado Povoamento da Cidade do Salvador (Salvador: Editora Itapuã, 1969). A alimentação, nas suas diversas facetas, aparece na terceira parte do livro – Aspectos ecológicos da colonização – onde ele enfoca, entre outros aspectos, farinha, carne, tabaco, condimentos, pão de trigo, jejuns.
Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755, tendo como autor A. J. Russel-Wood (Brasilia: Editora da Universidade de Brasilia, 1981), é um livro abordando a história da importante instituição na Bahia. Nada teria a ver com alimentação, se não contivesse um documento inédito e raro, datado de 1749, sobre a comida das internas, seus produtos e preços.
Ellen Melo dos Santos Ribeiro, com  Abastecimento de Farinha na Cidade do Salvador (Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais da FFCH da UFBA, 1982), aparece como trabalho inaugural na UFBA, tendo um produto alimentar sob perspectiva histórica. Versa sobre o período 1850-1870, demonstrando a importância da farinha na alimentação dos soteropolitanos.
Segredos Internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial 1550-1835 (São Paulo: Companhia das Letras, 1988), de Stuart B. Schwartz, é uma pesquisa de amplo espectro sobre a economia e sociedade do Recôncavo açucareiro. Sem grande quantitativo sobre o assunto, importantes  são as páginas que tratam da alimentação em geral, especialmente a dos escravos.   
Fidalgos e Vaqueiros (Salvador: Universidade Federal da Bahia-Centro Editorial e Didático, 1989), é uma versão ao estilo freiriano, da aristocracia dos currais, da cultura do pastoreio. Assim como o genial  pernambucano, ficção e realidade, juntam-se para a produção de uma obra singular e indispensável.
Kátia M. de Queirós Mattoso, aparece com um dos mais importantes livros sobre a vida baiana no século XIX: Bahia. Século XIX. Uma Província no Império (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992). Trabalho de uma vida dedicada à pesquisa, indispensável a quem pretenda entender da geografia, da família, do Estado, da igreja, do cotidiano da produção e troca, do dinheiro dos baianos. Vamos encontrar substancial material sobre alimentação, em especial nos livros VI, O cotidiano dos homens que produziam e trocavam e, no VII, O dinheiro dos baianos, que aborda das atividades produtivas à farinha nossa de cada dia.
João José Reis, um dos grandes historiadores da escravidão no Brasil, em seus vários livros, não deixa de apresentar elementos sobre a alimentação. Já cedo, em 1993, na Revista USP- Dossiê Brasil-África, nº 18, traz à luz “A greve negra de 1857 na Bahia”, onde demonstra a importância dos ganhadores na vida da “cidade da Bahia”, inclusive na comercialização de alimentos. Em 1996, na Revista de História, nº 135, o mesmo autor, em parceria Márcia Gabriela D. de Aguiar, escrevem um instigante e elucidativo artigo denominado Carne sem osso e farinha sem caroço: o motim de 1858 contra a carestia na Bahia. Embora discorram de forma consistente sobre as disputas políticas econômicas, a questão básica mesmo é a comida, em relação à  ausência, a qualidade e os preços.
O Trato dos Viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul (São Paulo: Companhia das Letras, 2000), de Luiz Felipe de Alencastro, é um livro que trata do  processo inicial de colonização da sociedade brasileira, abordando de forma específica a participação dos grupos formadores, contatos e confrontos na constituição da singularidade brasileira. Embora não sendo apenas sobre a Bahia, oferece elementos significativos sobre a alimentação, que envolve os “baianos”, da farinha ao tabaco, da banana à cachaça.    
A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e posse da terra no interior da Bahia (Vitória da Conquista: UESB, 2001), de Maria Aparecida Silva de Sousa, mostra a irradiação da marcha para o interior, com a pecuária tendo uma participação essencial no abastecimento da província. A autora cita um trabalho da Maria Yeda Linhares (Pecuária, alimentos e sistemas agrários no Brasil (séculos XVII e XVIII) Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, Rio de Janeiro, v.1, nº 2, p. 132-150, dez. 1996), que não li, onde ela destaca dois movimentos fundamentais: a ocupação da terra e a produção de alimentos voltados para atender os núcleos urbanos em expansão, associada à criação de animais.
A. J. Russel-Wood, com seu Escravos e Libertos no Brasil Colonial (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005), oferece uma completa radiografia sobre a escravidão no período colonial, com documentação primária concentrada na Bahia. Pouco aparece a alimentação, porém, destaco a apresentação do cultivo, desde 1560, do arroz africano Oryza glaberrima, por escravos trazidos de Cabo Verde. Tem sentido ele não avançar para a alimentação, na medida em que isso já havia sido feito por Barickman.

Continuarei brevemente tratando dos historiadores da alimentação da Bahia.

A Formação da Culinária Brasileira

Carlos Alberto Dória conta com algumas vantagens para a sua escrita instigante e criativa. É um expert em gastronomia, um amplo e atualizado conhecedor da bibliografia sobre alimentação, além de se respaldar na botânica, sociologia, antropologia e história. Os seus anteriores livros já me haviam fascinado, mas eu achava que ele podia fazer mais em direção exclusiva à alimentação da sociedade brasileira. Chega em tempo, portanto, o seu Formação da Culinária Brasileira. Escritos sobre a cozinha inzoneira do Brasil (São Paulo: Três Estrela, 2014). É um livro com vários ensaios, todos com uma interpretação singular sobre o comer dos brasileiros.
O primeiro capítulo, Formação da culinária brasileira, o mais amplo, embora ele o negue, é uma história da formação da alimentação brasileira. Erudição e verve crítica se juntam para “curtir” sobre a mestiçagem, sobre o mito das três raças, pautado em Freyre e Câmara Cascudo, também na cozinha. Disseca a importância da herança metropolitana, destacando que uma cozinha se faz com trocas, subtrações e acréscimos. Essencializar a cozinha portuguesa – ou qualquer outra cozinha – em especial ela, é jogar fora as suas constantes mudanças. Quando fala das culinárias indígenas, demonstra que muito precisamos fazer em termos de arqueologia, história e etnografia para conhecermos a comida dos primeiros habitantes do que viria a ser Brasil. Reduzir a sua contribuição à mandioca e algumas frutas, faz parte da nossa visão da aculturação de mão única dos europeus. Embora acredite que os escravos não contribuíram para a cozinha brasileira, não nega que a proporção que se tornavam livres, com criatividade, sobretudo no Recôncavo baiano constituíram uma “cozinha de azeite”. Caminha para o sertão, com “um Brasil  que não senta à mesa”: o Brasil da agricultura de subsistência e da pecuária. Como afirma Dória, um Brasil que ficou para trás, esquecido do ponto de vista culinário, quando na verdade sua “suposta cozinha agreste é, na verdade, feita de diversidade e sofisticação cultural” (p.87). Após, com análise sistemática, ressalta que a cozinha de ingredientes aponta para o futuro. Conclui o capítulo, discutindo as tendências para uma nova culinária brasileira. E que, para competir no mercado da gastronomia, precisamos adotar tecnologias modernas e combiná-las com as pesquisas regionais de ingredientes.
Ao abordar os “secos e molhados”, apontando uma sugestiva classificação, onde discorre sobre as suas formas, o que me fascinou foi a historicidade que ele remete na criação da oposição. No tipo de produção e na distância das atividades produtivas, ele identifica as matrizes para a criação de uma cozinha seca e uma cozinha molhada. No terceiro capítulo sobre “a emergência dos sabores regionais” é uma critica severa aos mitos da “cozinha brasileira” e das cozinhas regionais. Ele recorre à história, ao período da  República Velha, onde o Nordeste perde a força política e  como mecanismo compensatório usa a cultura, sobretudo a culinária. Sob a égide de Gilberto Freyre, a tradição era algo perpétuo, atemporal, sendo um atributo do Nordeste no Brasil. Em seguida, Dória mostra as diferenças entre o regionalismo de Freyre e o culturalismo de Câmara Cascudo, com o triunfo do primeiro. Embora sem atribuir a Freyre, os resultados, sobretudo com o desenvolvimento do turismo, foi o salto do regional à cozinha típica. E como afirma o autor, “A relação entre identidade e tipicidade é muito forçada, pois a tipificação não retém a riqueza cultural na qual os pratos, um dia, estiveram imersos” (p. 166).
Delicioso o seu “Feijão como país, região e lar”. Para mim, no caso baiano, do ponto de vista histórico, o feijão permanece um campo aberto de dúvidas sobre o início da sua primazia.
Nada a ver com o artigo de Dória, em especial com a sua  criatividade. O feijão não há como negar é o prato brasileiro por excelência; cada região tem seu feijão preferido e os variados tipos de ingredientes, por exemplo, nós baianos, somos a turma do “mulatinho”. O feijão preto, entretanto, já domina as festas dos abastados da Bahia, copiando São Paulo. Já o feijão da nossa casa, da mamãe, da vovó, é inigualável, ninguém faz igual. Minha simplificação não faz jus ao escrito pelo autor. No capítulo seguinte, abre uma discussão importante: “legitimidade e legibilidade à mesa”. Legitimidade se refere a algo singularmente brasileiro, como o tucupi. Já legibilidade diz respeito á aquilo nativo ou exótico aclimatado, porém reconhecido como brasileiro,a exemplo do arroz com feijão que todo mundo conhece. Será através da pesquisa etnográfica, culinária, de ingredientes novos e a pesquisa histórica, que se dará a renovação da culinária brasileira. E para isso será preciso insistir, persistir, como diz Dória, para modificar os hábitos do paladar no Brasil.
Sobre “O estilo feminino de cozinhar” é uma discussão sobre o gênero na cozinha. É um texto de natureza histórica mostrando o domínio do homem nos restaurantes, na gastronomia. Vê o feminino na obra de Jorge Amado, onde o autor “projeta a “cozinha de azeite” da Bahia como um território feminino que, de modo indireto governaria o mundo dos homens” (p. 206-207). Essa “cidade das mulheres” de Landes e do feminismo do candomblé “dá muito pano para manga”. Esquecem até que tem homem no candomblé. A discussão sobre o uso do corpo, lembrando de Mauss, das técnicas no cozinhar é extremamente importante, sobretudo na questão de gênero. Enfim, o autor abre um campo vasto ainda não estudado pelos antropólogos. A cozinha doméstica, feminina, não gera a gastronomia no sentido usual do termo – com exceções crescentes, predominam os chefs nos restaurantes – mas será ela a base para julgar o trabalho masculino dos restaurantes.
O seu último capítulo, “Propostas para a renovação culinária brasileira”, onde ele começa  realçando dois aspectos: o esgotamento das categorias históricas através das quais pensamos nossa tradição alimentar; reconhecer a diversidade do público, oferecendo-lhe opções capazes de satisfazer suas diferentes expectativas. Vê chefs inovadores por todo o país, mas, ressalta que alguns são obrigados a fechar seus restaurantes ou abandonar a trilha criativa que haviam escolhido. Utilizando São Paulo, por sua riqueza e cosmopolitismo, ele aponta os estilos que buscam o reencantamento da culinária brasileira: naif, etnográfico, alegórico,experimental, “juscelinista”. Concluindo, Dória aponta “seis propostas para o futuro”, todas da maior importância, mas, eu escolhi somente uma : “Transformar o cozinheiro num personagem culto da cena urbana, especialmente no que tange ao  conhecimento da cultura culinária”.

Esse é um livro que, seja por sua originalidade, seja por sua perspectiva teórica, tornar-se-á um clássico da alimentação brasileira. Livro a ser adotado nos curso de Antropologia, Sociologia, História, Nutrição. E por todos aqueles que se interessam pela cozinha ou pelo comer.

De um pesadelo para um filme de terror

O texto abaixo, fugindo às características do blog, foi escrito em um momento de indignação, em 31/08/2011, vendo a Copa como um pesadelo. Hoje, faltando 10 dias para o início da Copa do Mundo eu confesso que me enganei, a situação é muito pior. Eles conseguiram transformar o meu pesadelo em um filme de terror. Para sentir o mal que eles – Governos Federal, Estaduais, Municipais, Congresso, Assembleias, Câmaras Municipais, FIFA, CBF, Organizadores Nacionais e Locais, Rede Globo, além de gente como Ronaldo, Bebeto e tantos outros – fizeram com o país e com o povo, leiam o texto de Jorge Luiz Souto Maior, “A Copa Já Era”, transcrito no blog de Juca Kfouri e reproduzido no blog de Dimitri  http://dimitriganzelevitch.blogspot.com.br
                                                                                                   
Hoje acordo vendo o Brasil que nos orgulha e o Brasil que nos envergonha: uma atleta honrando o Brasil internacionalmente e uma política sendo absolvida por seus honestos pares. E fico pensando na Copa do Mundo e nas Olimpíadas que teremos no Brasil. Quantas quadras, pistas de atletismos, piscinas foram criadas na Bahia durante os últimos dez anos? Além de um regulamento sobre o torcedor, em parte em desuso, e medidas de controle social dos torcedores, quais melhorias foram realizadas em nosso principal estádio e na maioria dos estados brasileiros nos últimos dez anos? Quanto investimento foi realizado na formação de atletas e quais medidas foram realizadas em torno do mercado de trabalho dos jogadores de futebol na Bahia? Aliás, alguém já pensou na diminuição do mercado de trabalho e da situação do envelhecimento dos jogadores de futebol? Qual governo, sobretudo federal e estadual, já pensou que a melhoria do futebol brasileiro passa pela democratização e profissionalização dos dirigentes brasileiros? Até quando teremos que suportar a nível nacional, regional e local – inclusive nos clubes – a eternização de dirigentes medíocres, em sua maioria corruptos? E isso ocorre, porque, cada vez estou mais cônscio, que políticos e governantes veem nos esportes e no futebol apenas mais uma oportunidade comercial – prefiro dar esta nominação para não ser processado – e política
Queremos realizar uma Copa do Mundo? Óbvio, mas não a que está sendo gestada, com falácias e piadas. Fala-se em tudo, menos em futebol: ela é a Copa do Mundo do Governo e do Empresariado. Começamos dizendo que o setor privado seria o grande investidor da Copa, quando na realidade quase todo o dinheiro é público. O setor privado – junto com pessoas e grupos informais públicos - vai ganhar e nós, os pobres mortais, vamos pagar a conta. Por que só os africanos e nós temos que engolir as absurdas estruturas nos estádios, montadas pelas cabeças elitistas e mafiosas da carcomida FIFA? E a nossa Fonte Nova que apenas poderia ser reformada e estamos construindo um monstrengo que até hoje não sabemos como será, nem quanto custará. É verdade que sou meio desinformado, assim como todas as pessoas que conheço.
Acho que no futuro será um grande espaço para as bandas de axé, pagode e igrejas evangélicas. Já pensaram o enorme público de Bahia e América de Minas Gerais com o “valor ínfimo” que será cobrado? E no meio tem episódios dignos de José Simão: na “prestigiada” Bahia ocorreria a abertura da Copa. Só rindo para não chorar
Há seis meses ou um ano atrás – o tempo de tanta coisa que se fala na Bahia é meio difícil de precisar - se falava da necessidade de expandir o aeroporto e diante dos problemas ambientais, se pensava até mesmo em novo aeroporto em Feira de Santana. Já na semana passada falavam das maravilhas do nosso aeroporto, inclusive com banheiros de “Primeiro Mundo”. Aí aparece um jornal “espírito de porco” e fala nos mendigos adentrando o aeroporto, os taxis ilegais, sem falar na carência de transporte público e os assaltos nos poucos ônibus que existem.
Mobilidade urbana: começa com uma grande piada. O metrô de 6 km, iniciado há mais de dez anos e sem previsão de conclusão. Junto com ele um grande crime contra todos nós: a devastação ambiental das principais áreas da cidade. Conduzida pela Prefeitura, é verdade, mas com o beneplácito do Governo do Estado. Destruíram a cidade e agora quando se pensa – já é alguma coisa alguém pensar entre nosso governantes, fazer é outra coisa - em um moderno sistema de transporte (acredito em Paulo Ormindo) os dignos Edis dizem que o BRT é melhor e que querem participar das decisões governamentais. Justo, justíssimo. Porém, melhor seria que eles também andassem pelas ruas próximas ao seu local de trabalho. Que tal dar uma passada no dinâmico e ativo Largo 2 de Julho, com comércio, serviços e população morando, e observar a profusão de carros estacionados irregularmente, sujeira total e a profusão de mendigos, bêbedos e sacizeiros? Mas, a verdade é que isso não tem grande importância, afinal, são problemas de toda cidade.
A segurança baiana, com dez fotos no New York Times, e estatísticas assustadoras, com 25 homicídios na Grande Salvador no último final de semana, também é apenas um detalhe a ser solucionado na Copa do Mundo. Ah, tem os turistas com alguns casos, mas pontuais, sem nada que mereça mais atenção, afinal já criamos com muita midiatização a UPP do Calabar e outras virão. Passeie pelo Calabar, mas evite o Jardim Apipema, a Sabino Silva, a Ondina, a Graça e a Barra, em especial o Porto da Barra, pois poderá ser assaltado de dia e à noite, com enorme probabilidade. Será que alguém sabe que a maior empresa de intercâmbio dos USA, por causa da violência contra seus estudantes, poderá ser fechada na Bahia?  Nosso setor hoteleiro precisa de expansão e todos o sabem, mas valerão a pena os investimentos?
Mas, com certeza teremos uma grande Copa do Mundo. Primeiro, se faz um grande corredor de trânsito do aeroporto para hotéis e para o estádio; segundo, se enche de policiais as áreas que deverão ser frequentadas pelos visitantes; terceiro, se os jogos forem medíocres, generosamente se distribuem os ingressos com a patuléia. Claro, tudo isso com a participação de nossas Divas – Ivete, Daniela, Cláudia Leite – e o Chiclete e Asa de Águia. E, para completar a glória do nosso empreendimento, quem sabe com alguma ajuda especial – como a Argentina em 1978 – veremos Ricardo Teixeira, Pelé e o honesto Presidente da FIFA entregando a taça de campeões a Neimar. E viva o país do futebol.           


Artigo escrito em 31/08/2011 – A deputada federal Roriz foi absolvida por seus pares no Congresso e a atleta de salto em vara brasileira tornou-se campeã mundial.

Muito além dos interditos alimentares: para uma antropologia do não-comer (Texto escrito pelo antropólogo Cláudio Luiz Pereira)

“Para onde ides vós [pobres]? Não é para a sepultura? Sim. E os ricos, os opulentos deste mundo, para onde vão? Para a sepultura também. Ah! Regozijai-vos então de ter para comer apenas vosso pedaço de pão, já que a sepultura é para todos o termo inevitável, vós, porque comeis menos, chegareis mais tarde, e, porque tereis comido menos, sereis menos comido... E quando os ricos e os pobres estão na sepultura, existe entre eles alguma diferença? Sim, e uma grande diferença, que é ainda em vantagem dos pobres: por uma alimentação superabundante a galinha é engordada para ser comida pelos homens, por ela, também os homens engordam a si mesmos, para serem comidos pelos vermes. Como para ser comido, oh! Que triste destino!... os corpos dos ricos, sendo cheios e carnudos, são verdadeiros festins para os vermes, enquanto para estes os corpos dos pobres, que são apenas pele e osso, só oferecem abstinência”. (Antônio Vieira – Sermões)


1. Introdução ao tema e ao problema.
A antropologia da alimentação, nos últimos anos, vem se consolidando como uma especialidade antropológica bastante eclética, produzindo um conjunto de estudos, realizados ou não de acordo com uma metodologia própria, e que congrega abordagens de temas e problemas relacionados à comida e à cultura: a alimentação, os aspectos nutricionais, a ecologia e sua relação com produção e consumo alimentar, os aspectos rituais do comer, etc. Muito se tem escrito, desse modo, sobre o ato social de comer, e, logo, sobre o fato de que esse comer ultrapassa as fronteiras da dimensão puramente natural, e se enraíza na dimensão da cultura, de modo tal que em torno dessa ação do “comer” o homem construiu uma teia de significados, fundamentais no que concerne à sua vida, e à sobrevivência de sua espécie. A evolução biológica do homem guarda estreita relação com sua história de adaptação técnica aos constrangimentos do meio ambiente, o modo como se deu a colonização de novos habitats, a exploração de nichos ecológicos estranhos e, ademais, a busca de acesso a recursos ainda não explorados. O homem, já no estágio de hominídeo, se tornou um animal onívoro, tornando-se capaz de devorar além de vegetais outros animais, desenvolvendo assim um sistema digestivo capaz de metabolizar diferentes tipos de alimentos. É natural, pois, que muito se valorize, no âmbito da vida cotidiana, bem como nos estudos antropológicos, o ato primordial de alimentar-se (observando-se o “de comer”, “aquilo que se come” e “como se come”), e pouco se atente a seu contraponto, ou seja, pouco inquérito haja sobre o ato de não-comer, isto é, de abster-se de alimentos por razões pragmáticas, sejam elas médicas ou religiosas, ou por motivos patológicos, ou apenas porque não se tem o necessário alimento disponível. Comer e não-comer são práticas sociais que articulam a natureza à cultura. Comemos e não-comemos porque isto faz sentido, ou seja, a isto atribuímos um significado pessoal ou social. Meu objetivo na presente conferência (realizada no Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA, em novembro de 2011) é reivindicar um lugar para uma antropologia do não-comer dentro desta antropologia da alimentação. Para alcançar tal intento pretendo esboçar, baseado numa indiscutível e presumida relacionalidade entre comer e não-comer, uma articulação entre diversos textos, antropológicos ou não, que abordam a questão deste negativum cultural, que eu aqui chamo de não-comer. Pretendo assim retorcer as idéias, até que elas nos apresentem a realidade por um lado invertido. O não de não-comer, como aqui exposto, não deve ser visto como uma mera negação. Para aqueles que estranham o uso do “não” seguido de hífen para caracterizar meu objeto, o não-comer, lembro que Marc Augé apresentou o conceito de Não-lugares, com o qual introduz sua antropologia da supermodernidade. O ponto de partida de minha argumentação é que é a cultura que nos diz “quando” não-comer, “onde” não-comer, bem como o “por que” e “para que” não-comer. Como operação reversa, com relação ao comer, pode-se fazer, portanto, as mesmas indagações, com exceção de “o quê”, já que não se tem “o que” não-comer mesmo. Minha argumentação seguirá basicamente este propósito de ressaltar essa ambivalência, esta dimensão negativa e positiva embutida no não- comer, e que aqui dirá respeito ao jejum, à greve de fome, às dietas e os regimes, assim como os distúrbios alimentares, já que as doenças são também problemas da cultura. O não-comedor não deve ser visto, neste sentido, como o faminto, mas como o que não tem vontade ou recusa o comer. É esta recusa ou falta de vontade de comer que contradita as idéias de que homem é um animal voraz por puro impulso natural, e de que toda cultura humana se constrói, tout court, em torno da centralidade do tubo digestivo. Desse modo, comida não é apenas alimento. Comida é afeto, gosto bendito ou maldito, e o que não-se-come também o é. Alimentar-se parece ser condição sine qua non da natureza, da manutenção do corpo, da prevalência da dinâmica de um metabolismo, de uma fisiologia própria para ingerir, processar digerindo, e dispensar os resíduos. Comer, por outro lado, é um atributo da cultura: certamente é esta que dita “o quê”, “como”, “quando”, “para quê”, e “porque” comer. Em torno do comer, é verdade, poder-se-ia tecer toda uma psicologia do alimentar. Com o não-comer poder-se-ia reivindicar uma psicologia do não-alimentar. É curioso que sejam tão comuns as queixas dos pais de que os filhos não se alimentam, de que eles não-comem. Não-comer é um ato psicológico e físico, uma experiência interna que nos atinge no âmago. Se um homem é o que ele come, como se diz repetidas vezes, um homem não é aquilo que ele não-come, não-comer implica muitas e diferentes coisas: vontade, denodo, elan, resistência e equilíbrio moral, determinação, despojamento, etc. Desejo de comer tem como contraponto a vontade de não-comer, mas deve-se notar, todavia, que tais termos, desejo e vontade, não são nem simétricos, nem equivalentes. Comer para além do suficiente, se locupletar ou se valer da justa medida para a comida, que deve ser sempre justa, depende do nosso senso de saciedade. Até por isto o não-comer, pode ser definido por seu caráter parcial ou total. Para explorar este lado reverso de nossa cultura, o do não-comer, bem sabemos, seria necessário construir toda uma etnografia, o que faria com que este campo fosse mais bem elaborado. Pistas de investigação não faltariam aos candidatos a pesquisadores para a área designada, e por isto mesmo formulo uma problemática particular, qual seja: qual a função do não-comer na vida das pessoas? O que sente e como se comporta quem não-come? Quais os mecanismos fisiológicos e psicológicos da fome e de não-comer? Como as pessoas não-comem? Quando as pessoas não comem? Onde as pessoas não comem? E, no caso dos interditos, o que as pessoas não podem ou não devem comer? E o que elas efetivamente não comem? Iremos ter como pano de fundo, portanto, a idéia de que alguns não comem podendo comer, e é este fato que nos intriga na nossa cultura.

2. O Jejum e as dimensões espirituais e religiosas do não-comer.
Uma primeira aproximação nos aponta um aspecto curioso que respeita a relação entre comida e a religião: comer excessivamente leva ao pecado, jejuar conduz à virtude, à santidade. Abstinência de comida é fonte de purificação, o jejum fortifica, aniquila o mal. O jejum, a abstinência alimentar, é uma privação parcial ou total de alimentos. Em geral é feito por motivos religiosos, assim como, também, por motivos terapêuticos ou higiênicos. O sentido mais pleno do jejum, todavia, é o espiritual. Quase todos os profetas alcançaram revelação, que é o fundamento da religião, através da abstinência alimentar. No judaísmo o jejum assumiu forma de Iom Kipur, o mais que importante Dia do Perdão. A relação com a comida também se inscreve na cultura religiosa judaica através da dieta kasher. Esta implica em práticas alimentares complexas, e que se articula a uma conjunto fixo de leis e costumes, para o qual é requerido um adestramento fiel dos judeus. Muitas são, portanto, as regras do não-comer que aqui estão explícitas e implícitas. Na cultura cristã a relação entre o comer e a espiritualidade é fundadora. Repare-se, por exemplo, que o primeiro pecado é uma decorrência da desobediência a uma restrição alimentar. Deus disse que era para não-comer daquela fruta. E o pão nosso de cada dia...? e após quarenta dias sem comer, Jesus, ao ser tentado por um bem alimentado Satanás, a transformar a pedra em pão, responde de que nem só de pão vive o homem, mas da palavra de Deus. Comer e não-comer se desdobram em ações sacrais no cristianismo. No catolicismo são conhecidos, ademais, os poderes das Santas jejuadoras, anoréxicas avant la letre (são tantas, como Santa Rosa de Lima, Santa Catarina de Siena, Santa Colomba de Rieti, Santa Catarina de Gênova, Santa Verônica, Santa Maria Madalena de Pazzi e Santa Clara de Assis). Retomaremos, mais à frente, o imaginário cristão sobre o não-comer, porque ele é constituinte de nossa cultura. Por ora, passemos então em revista o islamismo, onde o jejum ritual é um dos pilares da religião, sendo obrigado para o muçulmano o resguardo alimentar durante o Ramadã, o mês de agosto. Os outros pilares são: a recitação e aceitação da crença (Shahada); orar cinco vezes ao longo do dia (Salah); pagar esmola (Zakah); fazer a peregrinação a Meca (Haj) se tiver condições físicas e financeiras. Deus considera o jejum, de acordo com o profeta Maomé, como a melhor de todas as orações, justamente porque somente Ele e o fiel é que sabem sobre a sua veracidade do cumprimento de seu voto. A palavra Ramadã encontra-se relacionada com a palavra árabe ramida, “ser ardente”, possivelmente pelo fato do Islão ter celebrado este jejum pela primeira vez no período mais quente do ano. A abstinência é observada da alvorada até o por do sol, o que também, neste período, se aplica às relações sexuais. O crente deve não só abster-se dessas práticas, como também não pensar nelas e manter-se concentrado em suas orações e recomendações a Deus. Além das cinco orações diárias, durante esse mês sagrado recita-se uma oração especial chamada oração noturna.O jejuador deve abster-se de tudo que vai contra a regra religiosa, pois o jejum é visto como uma grande prática capaz de trazer componentes de disciplina e da doutrina, tanto espiritual como moral. A ação não se limita somente à abstinência de comer ou beber, mas também de todas as coisas más, os maus pensamentos inclusive. O jejuador, como regra, deve ser indulgente se for insultado ou agredido por alguém, deve evitar todas as obscenidades, ser generoso, bem mais do que nos outros meses, assim como aumentar a leitura do Alcorão. No budismo, o jejum como meio para atingir compreensão espiritual foi amplamente usado, mas algumas correntes defendem a substituição do jejum pela meditação, como meio para atingir a compreensão espiritual, o nirvana. Ou seja, todos os modelos de religião de algum modo trabalham a comida em demasia como pecado, por um lado, e a abstinência dela, o não-comer, por outro, que é visto como um fator de santificação, de sacralização, como instrumento de ascese. Mas se para todo pecado existe um castigo, ou seja, uma forma de expiação, para os delitos associados aos tabus alimentares, também existem forma de contrições exemplares. Exceder-se no comer, aproveitar-se em demasia da abundância de alimentos, é visto na nossa cultura religiosa como um pecado que está associado não só a gulodice, como também a intemperança (onde a questão do poder e do controle pessoal está implicada) e a embriaguez. É curioso que a gula e a luxúria tenham em comum a expressão “comer” como designação do móvel do pecado. Instintos humanos essenciais, a fome e o desejo sexual, são não apenas necessidades primárias, mas também prazeres inqualificáveis. Comer é saborear, não-comer é privar-se do gostoso. Do comer, logo, depende a sobrevivência da nossa espécie. Comer é assim uma metáfora para uma conjunção carnal, para usar outra metáfora, também de caráter alimentar. Alguém comer alguém é possível no plano sexual, mas interdito no sentido alimentar. Vide as restrições ao canibalismo, mesmo quando ele é indispensável à sobrevivência de alguns, ou seja, mesmo quando ele é moralmente aceito por alguma razão grave. É por isto que a gula, o comer acintosamente e sem sabedoria, tornou-se um delito religioso capital, ou seja, tornou-se um pecado que conduz a outros pecados. Comer em demasia, sobretudo, é condenável religiosamente, e é um delito que merece o fogo do inferno. Na cama e na mesa, comer você pode, mas não deve se aproveitar disto não. Esta é, portanto, a mesma raiz do pecado. É por esta imagem da transgressão através da fartura quase grotesca, que a modernidade vai introduzir os argumentos da culpabilidade moderna dos gordos, como veremos a seguir. Porém, outro aspecto relevante desta relação entre não-comer e religião diz respeito aos interditos alimentares. Com efeito, não respeitar condutas alimentares, quando sancionadas religiosamente é grave delito moral. Note-se agora, portanto, de que toda cultura religiosa necessariamente tem um repertório de interditos alimentares. São quizilas, quando não abominações, evitações. Restrições a determinadas comidas são preceitos absolutamente funcionais. Eles funcionam por alguma razão, cumprem um papel importante nas crenças, nos rituais, nas organizações religiosas. As quizilas ou Euós, aliás, os tabus e preceitos alimentares das religiões afro-brasileiras, já foram exploradas corajosamente por nossos etnólogos, que as situam num contexto de transgressão, de reparação e da organização de um mundo religioso que tem uma peculiar dinâmica. As coisas proibidas de comer (sú Dudu), são distintas das coisas proibidas de fazer. Para as primeiras são fixados tabus e para as segundas preceitos. No caso das religiões judaicas e cristãs as abominações indicam objetivamente restrições ao comer. O Levítíco e Deuteronômio, foram excepcionalmente explorados por Mary Douglas na sua obra Pureza e Perigo, onde ela conclui que a objeção, ou as abominações a comer determinados animais (muito engraçada é a taxonomia explicitada pelo legislador: animal de casco fendido, ruminante, marítimo de couro e não escamas, etc.) se enquadram num quadro geral de santificação, que é operado heuristicamente a partir dos conceitos de puros e impuros. Por fim, merece ser comentado, como um elemento peculiar desta cultura do não-comer com motivação espiritual, aquilo que se chama de inédia, ou seja uma suposta possibilidade de sobreviver sem comer. Prana, assim como a luz solar, são tidos como repositores de energia. A comunidade Vivendo de Luz reúne mais de 450 seguidores na Internet. Pessoalmente conheci pessoas que passaram pelo processo de 21 dias, desenvolvido por Jasmuheen, que leva à abolição da comida, o que é visto como uma virtude quase que mágica. Crenças e eficácia da crença, à parte, este é um prato bem nutrido esperando por antropólogo disposto a fazer mais observação participante que participação observante, frente ao não-comer.

3. Greve de fome e fisiologia da fome.
Não se pode adentrar no tema do uso político do não-comer sem questionar o valor moral que tem a fome para nossa civilização e contemporaneidade. A fome gera um sentimento moral de repulsa, porque um dos maiores fantasmas para a humanidade é justamente a não provisão de alimentos. Seus efeitos são deletérios, e em uma escala maior induzem, quase sempre, a um nível de desorganização que torna as sociedades insustentáveis. Multidões famélicas são perigosas. Tornam-se turbas que encenam as fatídicas danças da morte... O que são nossas classes perigosas senão a população relegada a sub-alimentação, a uma dieta insustentável? De acordo com a FAO, havia no mundo, segundo dados do último ano, 1,017 bilhão de famintos. A maior parte estaria na Ásia e no Pacífico (642 milhões), na África (265 milhões), na America Latina e Caribe (42 milhões) e também nos países desenvolvidos (15 milhões). É a mesma fome, se diz alhures, que faz a fortuna dos especuladores que ganham operando o estoque, a oferta e a procura de alimentos. Mas, que significa não-comer num mundo que tem fome? Visto numa perspectiva normal, não-comer é uma opção moral, espiritual, política, terapêutica, e se realiza na condição de que um determinado objetivo seja alcançado. A sensação de fome é atroz para quem é acostumado a comer. Em tese é uma dor, lancinante, aguda e surda, localizada na região superior do ventre. Ao mesmo tempo é uma vontade furiosa, intestina, de querer comer. A fome é diferente da sede, todavia, sobretudo porque essa última se configura pela secura da mucosa da boca, além do desejo de ingestão de líquidos. A fome prolongada traz, paradoxalmente, alterações metabólicas que reduzem e anulam o sofrimento do faminto. Na falta de água, contudo, a língua se cola no céu da boca, aumentando drasticamente a sensação de mal-estar. Os mecanismos da fome podem ser observados primariamente pela baixa de glicose, e outras substâncias no sangue, e pelas contrações dolorosas do estômago vazio. Tendo em conta a falta de alimento, o organismo libera hormônios para manter um funcionamento equilibrado. A sensação de fome é difusa, em parte é contração intestina, em parte é sofrimento psíquico. Tão grave é a noção de fome para a humanidade que sua representação inscreve-se no nosso imaginário. Penúria de alimentos é um fantasma que assusta e assombra nossa civilização. O medo da miséria e da fome marca nossa história. Por isto mesmo, numa escala global a imagem da fome provoca uma contrição moral, é prova da falência de nossa civilização, num nível universal. A fome é, sempre, uma questão política, de Estado, de nação, de sociedades. Dar de comer a quem tem fome é sabidamente obra da misericórdia humana. O não-comer tendo fome e alimento, todavia, ganha notoriedade, historicamente, em contextos políticos que lhes dão uma inusitada singularidade. Dois deles merecem ser aqui examinados, haja vista o que eles trazem de contribuição a propugnada antropologia do não-comer: um é a fome como punição judiciária, outro é a greve de fome como recurso de pressão política. O não-comer, como forma de punição, aparece sem igual no livro de Carlos Sueiro, El Arte de Matar, dedicado ao uso social de penas capitais. Para ele, deixar morrer de fome a um réu foi tradicionalmente um meio de execução fácil e econômico. Da Roma antiga a China medieval, os “fossos de fome”, profundos como os infernos, foram operados regularmente. Calcula-se, aliás, que cerca de quinhentos mil dos três milhões de judeus executados em Auschwitz morreram de inanição. Mas o gênio humano nesta área penal, diga-se passagem, deu prova de engenho sem igual ao realizar na punição uma forma de tormento único, pelo qual passaria o executado. O objetivo era de que ao ser privado de alimento, não se morresse de fome imediatamente, mas numa agonia e sofrimento lento e espetacular. Na Grécia, por exemplo, alguns ímpios eram condenados a morrer de fome, sentados diante de mesas abundantes, e de banquetes suntuosos. Na Inquisição, também, a “máscara da fome”, era um aparato metálico que cobria o rosto e impedia que o maxilar se movesse e, logo, o réu de se alimentar. Também aqui o executor se comprazia em apresentar saborosos manjares e suculentas bebidas frescas. Vale mencionar que execuções também foram realizadas obrigando os réus a comer: a ingestão de venenos, por exemplo, de bambus que fermentam e se expandem no estômago, de ingestão de frutas em demasia, ou de alimento salgado que leva a uma alucinante sede. A greve de fome, por seu lado, se encaixa como parte de uma doutrina política que ficou caracterizada como “método de intervenção não violento”, e que inclui, também, a auto-exposição aos elementos, o jejum, o jejum de pressão moral, o jejum satyagrahica (postulado por Gandhi como uma palavra que significa “estar conectado a verdade”). Reivindicação de direitos atingidos, pressão política, a greve de fome tem uma peculiar força moral, já que não afeta diretamente o alvo da insatisfação. Deixar alguém morrer de fome é gesto desonroso, vexaminoso socialmente, e inadmissível por força de muitas convenções políticas das quais os Estados nacionais são signatários.

4. As preferências alimentares, as dietas e os regimes.
Dietas, moderação e nutrição são palavras pululantes do nosso repertório lingüístico moderno. A obsessão de nossa cultura por dietas e regimes talvez seja, em parte, decorrência da nossa forte influência religiosa, e de certos modelos estéticos com os quais moldamos nossas modernas medidas corporais. A ditadura da magreza, o glamour com que são divulgadas as práticas alimentares das celebridades, os aspectos do mercado, com suas ofertas e demandas de alimentos, a melhoria do poder aquisitivo com a inclusão social de contingentes cada vez maiores de pessoas e o conseqüente aumento do consumo alimentar, promoveram transformações nos últimos anos que se refletem nos dias atuais. Vamos dizer que a culpabilização dos gordos é um dos dispositivos que levou a medicina a desenvolver especialidades que dão inteligibilidade aos efeitos do comer em demasia. Farmacologia endocrinológica, cirurgia bariátrica, balões acoplados ao estômago para dar a ilusão da comida, anéis e ganchos, são instrumentos mirabolantes que fazem face a impossibilidade de alguns não conseguirem não-comer. Os gordos, que foram outrora uma espécie de ofensa a Deus, hoje são apenas afronta a nossos padrões de saúde, e beleza, é claro. A propósito disto, aliás, vale mencionar um dos sermões do nosso querido padre Vieira, feito no Maranhão, transcrito e encontrado na obra de Delumeau (2003, p. 253), e referido na epígrafe deste texto, que mostra o lado macabro da gordura. As dietas, todavia, não foram feitas exclusivamente para os gordos. Porém, para esses numa dieta não existe somente o que se come, mas também tudo o que não se deve comer. Todas as dietas, construídas no nível da cultura popular, são dietas de engorda. Não é à toa, portanto, que a maior parte dos obesos se encontra nas classes menos favorecidas. A exceção me parece ser a dieta chinesa, na qual eles comem de tudo, mas, mesmo assim, são delgados. Até quando não sabemos. É voz corrente que a palavra dieta indica uma maneira de conduzir alterações alimentares, que visam fins permanentes. Além disso, toda dieta se baseia num repertório de itens que podem ser comidos, enquanto outros não são recomendáveis, logo são não-comestíveis. É nossa cultura que ordena “fechar a boca”, e é ela que constrange a abri-la, também. Dieta, entretanto, hoje ganhou o apelido de reeducação alimentar, onde se deve aprender mais a não-comer do que propriamente a comer com liberdade. Já regime pode ser para emagrecer, mas também pode ser para engordar. Regime é basicamente a opção pelo aumento ou redução alimentar num determinado tempo, visando determinado fim. Perder peso, por exemplo, deve ser obtido ao fim do período de controle alimentar estabelecido, e são estritas as regras do não-comer. Regime implica quase sempre fronteiras psicologias nas quais são equacionadas as relações do tempo com o peso, ou a saúde, daquele que faz regime. É curioso, aliás, o dinamismo circular dos regimes (e nisto pode-se ver o ritualismo e as crenças envolvidas no não-comer), que se desdobram em dias, semanas, meses, e, por isto mesmo. Lembrem-se do efeito da segunda-feira, como dia ideal, ou não, para começar um regime. Por fim, vale mencionar que os inibidores de apetite são, certamente, um dos aspectos mais curiosos que o interessado na antropologia do não-comer pode explorar. Apetite, não custa lembrar, indica as preferências alimentares que cercam certos padrões de comida, que uma pessoa pode encontrar. Comidas apetitosas são irrecusáveis e, portanto, se tornam fortes apelos contra as regras do não-comer.

5. Os distúrbios alimentares.
Anorexia, bulimia, obesidade são palavras-chaves do mundo moderno. Pautamos nossa vida alimentar em padrões de comportamento culturalmente fixado. O comportamento alimentar implica dimensões fisiológicas e nutritivas, psicodinâmicas e afetivas, além da dimensão relacional, que só o uso da boca implica (o mal não é apenas o que sai da boca do homem!...). Por isso o comportamento alimentar é complexo, e de importância central na vida cotidiana. Enquanto conduta, a ação de alimentar-se, é motivada de maneira consciente a partir das sensações básicas de fome, de sede e de saciedade, geradas, controladas e monitorizadas pelo organismo como um todo. O centro de saciedade, entretanto, está no cérebro, na região do hipotálamo, onde a saciedade se situa mais localmente, e em outras estruturas límbicas e corticais. Anorexia, em grego, significa falta de apetite. Anorexia nervosa se caracteriza pela distorção da imagem corporal, pela busca implacável de magreza através da perda de peso auto-induzida, seja por abstenção alimentar ou por comportamentos purgatórios, também auto-induzidos, ou exercícios excessivos e extenuantes, além do uso de anorexigeneos ou diuréticos. Como um grave estado nutricional o corpo padece de alterações endócrinas, metabólicas e eletrolíticas. Já a bulimia nervosa caracteriza-se pela preocupação permanente com o comer e por um desejo irresistível por comida, chegando a condição de hiperfagia. Estes fatores se aliam a preocupações exclusivas e intensas com o controle do peso corporal. Por fim, em relação à obesidade deve-se lembrar que esta é uma condição complexa, e, em geral, determinada tanto por fatores genéticos, de desenvolvimento psicológico, de família, de classe social, assim como de cultura. A obesidade associa-se a elevadas taxas de morbidade e de mortalidade. Se no passado era um pecado que levava a outros pecados, hoje é uma “doença” que leva a outras doenças. Deixarei de lado os problemas culturais concernentes a obesidade, faço isto considerando que a trajetória dos gordos na nossa história varia de acordo com os momentos peculiares da racionalidade humana, haja vista que eles evoluíram de um estigma para uma situação distintiva de orgulho, sobretudo numa realidade em que se busca incontinente as recompensas deste mundo mais do que de qualquer outro, inclusive o do além. Problemas de saúde pública, como é a obesidade, tornam-se, eventualmente, graves problemas econômicos. Reivindicam, por outro lado, tomadas de posição da cidadania, sobretudo quando direitos são ofendidos (é o caso do uso de duas cadeiras por gordos no avião, ou cadeiras para gordo no cinema), por força de uma situação que também é dada pela cultura. Afirmarei, desse modo, que o dilema para os obesos não é certamente o comer, coisa que aparentemente ele faz com muita naturalidade, mas sim o não-comer num mundo em que se oferece publicitariamente o consumo do comestível. Fome e sensações desagradáveis, de modo geral, são percebidas como coisas equivalentes, ou seja, o obeso falsamente percebe como sendo fome todo e qualquer mal-estar. Paradoxalmente, até a culpa por comer dá fome. O obeso não para de comer, pelo que nos diz a psiquiatria, porque ele tem uma disfunção dos mecanismos de saciedade. Não vou insistir, todavia, em elaborar aqui uma argumentação médica sobre os distúrbios alimentares, e em particular sobre a anorexia e a bulimia, além da obesidade. Pretendo nessa sessão tecer algumas considerações, baseado em fontes antropológicas, sobre como estas doenças se encaixam num contexto de cultura. Para tanto vou apontar aqui para um curioso livro escrito por René Girard. Trata-se do texto “Anorexia e desejo mimético”, no qual o antropólogo exercita sua teoria do mimetismo sobre esta perturbação alimentar, que ele julga atingir proporções epidêmicas. Para ele a cultura mais obcecada pela comida, em toda história ocidental, é a nossa. Vivemos num mundo em que comer demasiado e não comer o suficiente são duas maneiras opostas, mas indissociáveis, de fazer face ao imperativo da magreza que domina o imaginário coletivo. Vivemos, então, a “Fobia universal das calorias”, e a comida será sempre a droga menos perigosa para nossa saúde. Para Girard “nossos pecados estão escritos na nossa carne e devemos expiá-los até a última caloria, através de uma privação mais severa do que a que uma religião alguma vez impôs aos seus adeptos”. Eis o tempo do não-consumo ostensivo, no vestuário assim como na alimentação. Eis o tempo da competição e da rivalidade mimética: “No mundo desenvolvido as forças que nos levam a consumir são tão fortes quanto as que nos levam a jejuar. O consumo excessivo é favorecido pela enorme pressão publicitária e pela abundância de comida barata, bem como pelo desaparecimento de todos os impedimentos religiosos e éticos”.

6. Conclusão

Tentei esboçar nas páginas precedentes uma provocação, que eu suponho séria, sobre um tema antropológico que, acredito, merece um valoroso empenho de investigação. Mas o que pude oferecer aqui foi apenas um aperitivo, aquilo que deve abrir o apetite, porque saber e sabor são palavras que guardam uma mesma origem. Ou seja, basicamente tentei chamar atenção de que determinados aspectos “negativos” da nossa cultura podem ser abordados a partir de certa positividade e o não-comer é um deles. Relativizar as coisas faculta isto e acredito que o efeito disto seja um pouco irônico ou engraçado, mas reafirmo o caráter austero de minhas colocações. Não pensei em convencer quem quer que seja a não-comer, mas tentei demonstrar de que o não-comer está presente no nosso cotidiano, nas notícias dos jornais, na televisão, na internet, etc. Ou seja, não-comer é um elemento importante na história humana. Enfim, para concluir, vou evocar aqui a contribuição literária ao não-comer na singularidade de Kafka. Ele escreveu o enigmático livro “O artista da fome”, no qual narra a história de um último jejuador de um destes espetáculos de horrores que povoavam o mundo, no século XIX. No conto, o jejuador morre de inanição, mas por uma razão absurda: não encontra o alimento que lhe dá apetite. Deduzo, aliás, de tudo que foi posto, que comer bem não é comer muito, é comer melhor. E comer melhor só é possível não-comendo, também.

Futebol nas palavras de um gênio catalão

Raros são os livros sobre futebol que unem história, antropologia, psicologia e literatura. É o caso do livro do catalão Manuel Vázquez Montalbán – autor indicado por Carlos Alberto Dória – intitulado FÚTBOL. Una religión em busca de un dios (Buenos Aires: Debolsillo, 2006). Falecido em 2003, com vasta obra, reconhecido internacionalmente, o livro foi organizado por seu filho, seguindo a ordenação desejada por seu pai. Nas primeiras 60 páginas temos um quadro completo das transformações ocorridas no futebol europeu e espanhol, a partir das últimas décadas do século XX. O futebol, lembra o autor, sempre nos aparece na infância, onde vemos um instante mágico que um artista da bola consegue e torna-se para nós inesquecível. Adiante, ele diz que pertence a era de duas drogas: o álcool e o futebol. O álcool permanece como era, porém, o futebol perdeu a sua aura inicial, tornando-se uma droga de desenho. Os clubes se remodelaram segundo os cânones dos grandes centros financeiros e midiáticos; o jogo já não depende do talento coordenado de jogadores capazes de propiciar instantes mágicos memoráveis, mas de sistemas que levam o nome ou o apelido do treinador. Segundo Montalbán, o campeonato mundial de 1998 terminou a era do futebol espetáculo e começou a do futebol como religião de uma parte importante do capitalismo multinacional. A aplicação da lei Bosman, entre outras consequências, resultou de forma imediata que na Espanha se podia fazer uma seleção nacional só com jogadores argentinos. Os clubes transformaram-se em legiões estrangeiras. Irônico e correto é ele dizer que o futebol é uma religião laica na Europa pós-moderna na mão de dirigentes que os psicólogos chamam de idade pré-lógica. Ah, se ele conhecesse os dirigentes brasileiros! A mundialização da economia e a globalização televisiva nos conduz ao medo de perder a identidade, com pés-de-obra sem nenhuma identificação com nosso vinho ou acarajé. E para superar a desindentificação, muitas vezes os clubes ou Estados recorrem a fundamentalismos regionais ou nacionais, conducentes à violência. Choraremos como 1950 – sem falar nas questões extra-campo – se perdermos a Copa, com o arrogante e todo poderoso Felipão e sua legião estrangeira, apesar da renovada repetição midiática do “prá frente Brasil”? Muita indignação sim, choro, acho que não. Montalbán aborda as relações entre futebol, política, violência e literatura. E após, passa a analisar com maestria os grandes nomes do futebol antes e pós-globalização: Di Stefano, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Beckman e muitos outros maiores e menores. Se detém com maior profundidade em Ronaldo, um deus da engenharia futebolística ou os joelhos de deus. Já Beckham, um batedor de bolas paradas, vale muitas vezes mais que seu futebol, pois sua mulher e sua genética fazem com que tudo que toque vire ouro. Mas, não deixa de revelar suas preferências: Romário, o Deus brasileiro, e Maradona, “a mão de Deus”. Instigante e lúcida é a sua análise da história de vida do genial pibe argentino. No entanto, apesar da densidade dos temas apontados, a tese central do livro está contida na relação histórica entre Real Madrid e Barcelona. Uma rivalidade imprescindível para compreensão do futebol espanhol. A divisão secular de Castela e Catalunha ganham raízes contemporâneas com a Guerra Civil Espanhola. Rivalidade não só de equipes, mas de povos: o Real Madrid representando o franquismo e o Barcelona, sendo identificado como o exército simbólico desarmado da nação catalã. É leitura obrigatória e da boa, por mim simplificada, de um grande craque das letras.

A Antropologia da Alimentação da Bahia

Ainda é escassa a bibliografia sobre a antropologia da alimentação na Bahia. Daí ser preferível acrescentar os autores que extrapolam as fronteiras da UFBA, e mesmo da Bahia. Há sim, uma relativa profusão de livros de gastronomia ou receitas. E que apareçam mais, nada de preconceito. Eles refletem os autores e sua trajetória, o contexto, a história da sociedade. Sobre a Bahia, a antropologia da alimentação tem duas vertentes: uma, que procura compreender o que comem os baianos, e a outra, dirigida para a religião afro-baiana. No primeiro caso tem início com o artigo “Padrão alimentar da população da cidade do Salvador”, de Thales de Azevedo, apresentado nos Anais do Congresso Brasileiro dos Problemas Médico-Sociais de Após-Guerra, realizado em Salvador, em 1945 (vol. 2, Bahia, Empresa Gráfica LTDA, 1947). Depois disso vão aparecer vários artigos de Vivaldo da Costa Lima, reunidos postumamente nos livros já citados neste blog. Em 2001, na FFCH da UFBA, aparece a dissertação de Mestrado, denominada “Alimentação e Religião: a influência da orientação religiosa na formação de hábitos alimentares de adventistas do sétimo dia", elaborada por Sandra Pacheco. No ano seguinte, Ericivaldo Veiga de Jesus, faz o seu Doutorado na PUC-SP, abordando a “A cozinha baiana do restaurante-escola do SENAC do Pelourinho”. Em 2007, Gerlaine Torres Martini, na Universidade de Brasilia, apresenta a sua tese de Doutorado sobre as “Baianas do Acarajé. A uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira”. No mesmo ano, Sandra Pacheco, na FFCH da UFBA, faz a sua tese de Doutorado intitulada “ Gente é como aranha ... vive do que tece: nutrição, saúde e alimentação entre os índios Kiriri do sertão da Bahia”. No curso de Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos da UFBA, conhecido como Pós-Afro, Florismar Menezes, em 2010, escreve sua dissertação de Mestrado sobre “Acarajé: tradição e modernidade”. Em 2012, Fabiana Paixão Viana, no mesmo curso, fez o seu Mestrado sobre “Menus dos Trabalhadores Urbanos: estudo de caso do Calabar da Ezequiel Pondé-Salvador/Bahia”. Embora não sejam antropólogos, alguns estudiosos, em especial da Escola de Nutrição, fazem uma salutar aproximação. É o caso de Ligia Amparo da Silva Santos, com o livro “O Corpo, o Comer e a Comida: um estudo sobre as práticas corporais e alimentação no mundo contemporâneo” (EDUFBA, 2008); uma coletânea organizada por Maria do Carmo Freitas, Gardênia Abreu Fontes e Nilce de Oliveira, denominada “Escritas e Narrativas sobre Alimentação e Cultura” (EDUFBA, 2008); no mesmo plano, o livro de José Ângelo Wenceslau, intitulado “Fast-Food: um estudo sobre globalização alimentar” (EDUFBA, 2010). A Escola de Comunicação também se aproxima da Antropologia: primeiro, com o livro da psicóloga Angelina Nascimento (falecida), “Comida: prazeres, gozos e transgressões” (EDUFBA, 2006); segundo, com a dissertação de Mestrado, em 2012, de Larissa Ramos, “Pitadinha de Dendê: um olhar sobre a baianidade a partir de livros da comida baiana”. Mostrando a sua produção, em 2011, a UEFS publicou através da sua editora o livro “Antropoentomofagia: insetos na alimentação humana", coletânea organizada por Eraldo Medeiros Costa Neto. Já sobre a perspectiva da antropologia da alimentação afro-baiana, as bases são lançadas por Manuel Querino e Nina Rodrigues. O primeiro, com um livro voltado inteiramente para a cozinha baiana, intitulado “A Arte Culinária da Bahia”, que aparece em 1922, mas já com sucessivas edições. No livro “Os Africanos no Brasil” que só será publicado na década de 30 do século passado, Nina Rodrigues, em menos de meia página, faz referência a algumas comidas do povo de candomblé. Depois, além dos seguidores de Querino – de Brandão a Hidelgardes Vianna – críticos ou não, irá aparecer em 1950, um artigo de Roger Bastide, denominado “A cozinha dos deuses" (Candomblé e Alimentação). Mas, se este é um texto específico, antes e após, é difícil dizer quem não tocou na comida dos orixás: Artur Ramos, Donald Pierson, Édison Carneiro, Pierre Verger, Mestre Didi, Juana Elbein dos Santos, Júlio Braga, Vivaldo da Costa Lima, Waldeloir Rego e tantos outros. De outra geração e sem maior relacionamento com a academia baiana, é incomensurável a bibliografia de Raul Lody. Por sua longa vivência nos terreiros da Bahia, já é quase baiano. Da nova geração, aparecem Vilson Caetano e Fábio Lima. O primeiro com uma dissertação de Mestrado na PUC - São Paulo, em 1997, denominada “Usos e abusos das mulheres de saia e do povo do azeite”. Em 2009 publicou em Salvador, na Editora Atalho, o livro “O Banquete Sagrado. Notas sobre os “de comer” em terreiros de candomblé”. Já Fábio Lima escreveu um pequeno livro sobre “As quartas-feiras de Xangô. Ritual e Cotidiano: uma etnografia no Axé Opô Afonjá” (Salvador: Editora da Uneb, 2003). Para concluir, ainda em vida, a editora Corrupio, em 2005, conseguiu tirar a “fórceps” e publicar o texto de Vivaldo da Costa Lima, “Cosme e Damião. O culto dos santos gêmeos no Brasi e na África”. Estaria sendo leviano, caso pensasse que apresento o realizado na antropologia da alimentação na Bahia. Onde ficam unidades como Nutrição, Biologia, Saúde Comunitária, além das tantas universidades existentes na Bahia - como a UNEB, a UEFS, a UFRB, a UFSC, e as universidades particulares - com a sua produção?

O drible

Eu comprei o livro O Drible, de Sérgio Rodrigues ( São Paulo: Companhia das Letras, 2013) por indicação de Tostão, reiterada por Juca Kfuri. Dizia ser um belo livro, com uma abordagem inovadora sobre o futebol. E o é, sobretudo por sua qualidade literária. É uma estória trágica entre um pai e filho, envolvidos por Édipo, honra, vingança, crença e maldade. O pai, Murilo, sai de uma pequena cidadezinha e chega ao Rio de Janeiro em 1960. Vai parar no Jornal dos Sports, de Mário Filho, Nelson Rodrigues e outras feras do jornalismo esportivo. Integra-se ao grupo e se transforma em um jornalista de sucesso. Vem o golpe de 1964 e ele o apoia sem problemas. Casa com a linda Elvira, baiana, amiga de Pierre Verger – vocês já viram que todo mundo na Bahia era amigo de Verger (rs,rs) – que tem um filho e se suicida. Da mesma cidadezinha de onde veio Murilo, aparece um jogador excepcional, Peralvo. Filho de mãe-de-santo, ele possui o dom da antecipação, fundamental no futebol. O craque vive um segundo na frente. Algo que só temos em Kopa, Di Stefano, Didi, Garrrincha, Pelé, Zico, Zidane, Maradona, Messi, jogadores capazes de possuir o segundo da antevisão. Em 1962, chega ao Bangu, mas não tem imediato sucesso. Após sucessivas derrotas, o técnico o coloca no time e ele estoura. Murilo o transforma em um novo e melhor Pelé. Em confiança, Peralvo confessa a Murilo os seu poderes sobrenaturais, com a promessa de jamais revelá-los. Murilo prefere a manchete , não honrando a promessa. O que acontecerá a Peralvo? Já Neto, filho de Murilo, vai para a Escola de Comunicação, cria um grupo de rock, mas não vai longe. No apartamento herdado da mãe, vive com um amigo e dividem as mulheres. Aos 21 anos se apaixona e o pai que o detestava, convida o casal para um almoço. O pai rouba o grande amor de sua vida. Aos 49 anos, com mais de 20 anos afastado do pai, recebe um telefonema para visitá-lo no seu sitio. Aí, mais uma vez, aparece o futebol e sua história. Murilo traz à tona que, assim como a vida, uma partida não se repete. Sem a interrogação do futuro, elas seriam de uma pobreza incomensurável. Após verem a TV e os tapes, iam pescar traíras – só poderia ser este peixe – na represa. O filho não entendia os encontros: esperava um pedido de perdão e a explicação sobre o suicídio da mãe. As semanas foram passando e nada. Um dia o pai disse que havia escrito sobre a vida de Peralvo, que nos salvaria do fiasco de 1966, se tivesse sido convocado. Mas, um terrível desastre ocorreria com Peralvo, então jogador do Vasco, ao fazer o gol da vitória do Santos em tabela com Pelé: o gol contra da sua vida. Neto vai ao médico e sabe da real situação de seu pai: 2 meses de vida, no máximo. Ao voltar ao sítio não encontra o pai em casa, corre para a represa e o vê desacordado nas águas. Tira-o da água e tenta reanimá-lo: em vão. Esta é uma síntese precária do romance. Ir além, sendo o final surpreendente, seria tirar do leitor o caráter de suspense e descobertas imprescindíveis. Sérgio Rodrigues acertou em cheio e nos deu caprichado “drible de letra”.

Para estudar Antropologia da Alimentação

Os estudantes, ou mesmo jovens profissionais, que desejam estudar uma área da Antropologia tem sempre como dificuldade por onde começar. Aí entra a ausência, muitas vezes, da disciplina no curso, aliada à carência financeira. Hoje, já existe uma relativa bibliografia em português de livros da Antropologia da Alimentação, em especial na Editora SENAC São Paulo, mas também em diversas outras editoras nacionais e regionais. A minha sugestão é a seguinte, beba menos algumas cervejas na semana e compre dois livros. Primeiro, o sempre fundamental, “História da Alimentação no Brasil”, de Luis da Câmara Cascudo e, em segundo, para uma visão global da alimentação, o livro organizado por Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari, denominado “História da Alimentação”.
A partir daí, corra para o Google onde encontrará, em português, algumas centenas de artigos dos principais estudiosos brasileiros e internacionais. Desculpando-me desde já pelos eventuais esquecimentos, você encontrará Maria Eunice Maciel, Carmen Rial, Klaas e Ellen Woortmann, Gilberto Freyre, Carlos Alberto Dória, Henrique Carneiro, Claude Papavero, Renata Menasche, Paula Pinto e Silva, Raul Lody, Livia Barbosa, Peter Fry, Ulpiano Bezerra Menezes, Rafaela Basso, Ana Maria Canesqui, Sidney Mintz, Claude Lévi-Strauss, Mary Douglas, Jack Goody, Margaret Mead, Marvin Harris, Claude Fischler...
Progressivamente, irá descobrindo sites e blogs interessantes, como o ebocalivre. E, óbvio, visitar o site da Capes e pesquisar as dissertações e teses de todo o país. Creio que, a partir desses autores, você poderá começar – ou não – a comprar livros e formar uma biblioteca sobre a Antropologia da Alimentação. Se ler em inglês, sugiro como primeira aquisição a coletânea “Food and Culture. A Reader", organizada por Carole Counihan e Penny Van Esterik. Se ler em francês, compre “L’Homnivore: Le goût, la cuisine et Le corps” de Claude Fischler. Se for de espanhol, adquira “Alimentación y Cultura. Perspectivas antropológicas de Jesus Contreras Hernández e Mabel Gracia Arnáiz (já traduzido para o português com o título “Alimentação, Sociedade e Cultura”).

Ah, não deixe de curtir a literatura sobre o assunto, como o delicioso “A morte do gourmet”, de Murriel Barbery. Bom apetite!

O bando do baba

Eu prefiro chamar as pessoas que estão envolvidas comigo de bando, pois não perfazem um grupo ou qualquer outra coisa que indique organização. Já usar baba como palavra inicial é porque é assim que os baianos chamam a pelada. E futebol e comida fazem parte do jogo da vida. Quem primeiro aparece nesta estória é Cláudio Pereira, parceiro de tantas coisas, erudito, irônico sempre, até sobre comida escreveu, ou melhor, sobre o não-comer, faz parte do nosso grupo anarco-suicida. Luiz Mott, dispensa apresentações como intelectual, amigo querido, estamos concluindo um estudo sobre a alimentação de um prisioneiro do século XVIII. Ele guardou o documento por 30 anos, após a sua conferência no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O seu convite para trabalharmos juntos muito me alegrou. Eneida Duarte Gaspar, médica e tantas outras coisas, minha mestra, estamos escrevendo juntos o livro sobre A comida dos baianos no século XIX. Um tira-gosto já apareceu na Afro-Ásia 48 - A comida dos baianos no sabor amargo de Vilhena - e Eneida já escreveu "A comida dos baianos segundo os médicos da Faculdade de Medicina". Vamos indo devagar, mas, chegaremos lá em 2014. Florismar Menezes Borges, uma flor no mar, foi minha primeira orientanda sobre comida na Pós-Graduação de Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro), com a dissertação "Acarajé: tradição e modernidade". Fabiana Paixão Viana, orientanda desde a graduação, foi grande parceira e incentivadora para eu me envolver com alimentação. Fez a dissertação no Pós-Afro, sobre uma área de trabalhadores urbanos, denominada "Menus de trabalhadores urbanos em Salvador: o caso do Calabar da Ezequiel Pondé". Atualmente é Doutoranda em Antropologia na UFBA, com o projeto "A comida dos galegos: Salvador-Galicia". Ana Cláudia Venegeroles, nutricionista, querida amiga e profissional competente, está realizando no Doutorado em Antropologia o projeto "A comida dos chineses em Salvador". Mas, pela estadia no Peru, com o apoio do professor Humberto Rodriguez Pastor, sinólogo na área de alimentação, pensa em fazer uma comparação com Salvador. Eduardo Guimarães, profissional experimentado, professor da Universidade do Estado da Bahia, está fazendo, também sob minha orientação no Pós-Afro, um projeto sobre "A comida de quilombolas". Recebi um presente da Colômbia, uma jovem inteligente e muito séria, chamada Indira Quiroga, que está realizando uma dissertação em Antropologia sobre "A Alimentação de grupos indígenas na Colômbia". Valdinéa Sacramento, é minha orientanda no Pós-Afro, com um projeto sobre "A comida dos retornados no Benin". Infelizmente, a UFBA não gosta de futebol, sendo poucos os trabalhos, de forma geral. Porém, tenho dois parceiros de fé, Priscila Andreata, que escreveu uma dissertação sobre "A formação de jogadores de futebol na Bahia". Atualmente realizando Doutorado em Sociologia na UFBA, comparando o futebol brasileiro com o futebol inglês; e Paulo Roberto Leandro, jornalista, que escreveu uma Dissertação de Mestrado, denominada "O jornalista e o cartola: o jornalismo impresso na Bahia e sua resistência ao campo da política" e uma tese de Doutorado sobre o "BA-VI: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas", ambas na UFBA. "Ironia": somos todos torcedores do Vitória. No próximo ano, através da EDUFBA, lançaremos uma coleção sobre futebol na Bahia, inclusive com a republicação do meu "Gingas e Nós". Tenho apenas um orientando sobre futebol em Antropologia, Jessé Menezes, abordando na sua dissertação "Imbatíveis: a torcida organizada do Vitória". Meu interesse é incluir mais gente no bando e manter contato com estudiosos e grupos que tenham interesse em comida e futebol.

Homenagem a Vivaldo da Costa Lima (Antropologia e Alimentação)

Vivaldo da Costa Lima, com o lançamento póstumo, pela Editora Corrupio, dos livros “A Anatomia do Acarajé e outros escritos” e “Olga Francisca Régis- Olga do Alaqueto – A comida de santo numa casa de queto na Bahia”, reitera, o que tentou disseminar nos seus últimos tempos, que a comida é boa para pensar (Lévi-Strauss), mas também para ensinar. No primeiro livro, uma coletânea de artigos, em sua maioria fruto de conferências e palestras em diferentes locais e décadas, daí a reiteração em alguns textos. Sem seguir a primorosa sequência da organização do livro, inicialmente com os artigos “Para uma Antropologia da Alimentação” e “Alimentação e Trópico”, Vivaldo aborda, do ponto de vista teórico e metodológico, a importância da alimentação para a Antropologia. Eclético, sem aderir aos modismos, tinha nos clássicos – de Douglas a Hertz – um porto seguro para as sua viagens, o que o possibilitou ver na comida a tradição, a estabilidade das práticas e representações, assim como os intercâmbios, as mudanças, o conflito, a questão do poder. E, em 1987, no Congresso Brasileiro de Tropicologia, em Recife, elaborou um conjunto de proposições metodológicas, definidoras do vasto campo dos estudos sobre alimentação no Brasil. Mais de 20 anos se passaram, muito foi realizado na última década, mas muito do preconizado, sobretudo na Bahia, permanece virgem. Abordando outro aspecto, passeia com os estudos da alimentação no Brasil: Manuel Querino, o abridor dos caminhos, o fundador; Gilberto Freyre, com seu clássico Açúcar (não Casa Grande & Senzala ); Câmara Cascudo, com sua monumental enciclopédia – História da Alimentação no Brasil – e também com sua Antologia; Jorge Amado, um dos responsáveis pela disseminação dos nossos quitutes pelo mundo afora, assim como pelo atual statusda cozinha típica baiana. E, por fim, em um conjunto de artigos, aborda a comida baiana, com ênfase na cozinha de azeite. Demonstra que ela já estava aqui, através de Vilhena, nos finais do século XVIII, e que, progressivamente se incorporou, de forma ascensional, à vida dos baianos. Comida dos deuses que aqui chegaram, mas também dos homens, inicialmente de negros e pobres, e hoje comida de celebração de todos, inclusive das elites,  e conclui com seus saborosos e densos artigos sobre a Etnocenologia e Anatomia do Acarajé. Já no outro livro, sobre a cozinha do Ilê Maraiolaji, e sua comadre Olga do Alaqueto, é fruto de primoroso trabalho de campo. Através de sucessivas entrevistas com a veneranda ialorixá, são apresentadas as comidas de vinte orixás, de Exu a Obá. Com uma esclarecedora introdução, acrescida de uma aula sobre a cozinha sacrificial, passamos ao que os deuses comem, na linguagem pessoal da sempre admirada Olga do Alaqueto. As comidas são acompanhadas, em separado, pelas eruditas e esclarecedoras notas de Vivaldo da Costa Lima. No seu estilo inconfundível, Vivaldo da Costa Lima nos traz dois livros irreparáveis, que já nascem clássicos, indispensáveis para os estudiosos e interessados em alimentação.

Comer e jogar com paciência

Atualmente sou pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais e professor das pós-graduações em Estudos Étnicos e Africanos e Antropologia, na Universidade Federal da Bahia. Tenho algumas publicações sobre relações raciais e étnicas, futebol, trajetórias, porém, hoje dizem que já não basta. Quem não está plugado nas redes sociais está acéfalo. Meu caso é crítico, não tenho a febre do Lattes, não viajo para congressos e estou ausente das redes, enfim, estou quase morto. O blog é uma tentativa de abreviar o meu axexê ou cremação. Uns dois orientandos convenceram-me. Será também uma oportunidade de divulgar os seus trabalhos. Sou contumaz fichador e marcador de livros. Vou abordar a alimentação, em especial sua história e antropologia. Mas, não deixarei de falar de futebol, de lazer, de literatura e outras milongas. Além dos meus escritos, poderei também postar textos ou comentários de amigos. Uma amiga querida disse-me que tinha um blog e ninguém lia, já outro tinha centenas de seguidores. Isso pouco importa, um personagem de Rilke disse que escrevia por necessidade, já Mário de Andrade, irônico, dizia que se o mostrávamos era por vaidade e se não o mostrávamos era por vaidade também. Por outro lado, nem sempre quantidade é qualidade, e atendi também a Jérome Bindé e sua alerta contra a febre do imediato e a onipotente emergência. Vou na sua linha de compreensão do mundo atual, daí apenas uma vez por semana apresentarei algum texto. Com paciência.