Ainda é escassa a bibliografia sobre a antropologia da
alimentação na Bahia. Daí ser preferível acrescentar os autores que extrapolam
as fronteiras da UFBA, e mesmo da Bahia. Há sim, uma relativa profusão de
livros de gastronomia ou receitas. E que apareçam mais, nada de preconceito.
Eles refletem os autores e sua trajetória, o contexto, a história da sociedade.
Sobre a Bahia, a antropologia da alimentação tem duas vertentes: uma, que
procura compreender o que comem os baianos, e a outra, dirigida para a religião
afro-baiana. No primeiro caso tem início com o artigo “Padrão alimentar da
população da cidade do Salvador”, de Thales de Azevedo, apresentado nos Anais
do Congresso Brasileiro dos Problemas Médico-Sociais de Após-Guerra, realizado
em Salvador, em 1945 (vol. 2, Bahia, Empresa Gráfica LTDA, 1947). Depois disso
vão aparecer vários artigos de Vivaldo da Costa Lima, reunidos postumamente nos
livros já citados neste blog. Em 2001, na FFCH da UFBA, aparece a dissertação
de Mestrado, denominada “Alimentação e Religião: a influência da orientação
religiosa na formação de hábitos alimentares de adventistas do sétimo
dia", elaborada por Sandra Pacheco. No ano seguinte, Ericivaldo Veiga de
Jesus, faz o seu Doutorado na PUC-SP, abordando a “A cozinha baiana do
restaurante-escola do SENAC do Pelourinho”. Em 2007, Gerlaine Torres Martini,
na Universidade de Brasilia, apresenta a sua tese de Doutorado sobre as
“Baianas do Acarajé. A uniformização do típico em uma tradição culinária
afro-brasileira”. No mesmo ano, Sandra Pacheco, na FFCH da UFBA, faz a sua tese
de Doutorado intitulada “ Gente é como aranha ... vive do que tece: nutrição,
saúde e alimentação entre os índios Kiriri do sertão da Bahia”. No curso de
Mestrado em Estudos Étnicos e Africanos da UFBA, conhecido como Pós-Afro,
Florismar Menezes, em 2010, escreve sua dissertação de Mestrado sobre “Acarajé:
tradição e modernidade”. Em 2012, Fabiana Paixão Viana, no mesmo curso, fez o
seu Mestrado sobre “Menus dos Trabalhadores Urbanos: estudo de caso do Calabar
da Ezequiel Pondé-Salvador/Bahia”. Embora não sejam antropólogos, alguns
estudiosos, em especial da Escola de Nutrição, fazem uma salutar aproximação. É
o caso de Ligia Amparo da Silva Santos, com o livro “O Corpo, o Comer e a Comida:
um estudo sobre as práticas corporais e alimentação no mundo contemporâneo”
(EDUFBA, 2008); uma coletânea organizada por Maria do Carmo Freitas, Gardênia
Abreu Fontes e Nilce de Oliveira, denominada “Escritas e Narrativas sobre
Alimentação e Cultura” (EDUFBA, 2008); no mesmo plano, o livro de José Ângelo
Wenceslau, intitulado “Fast-Food: um estudo sobre globalização alimentar”
(EDUFBA, 2010). A Escola de Comunicação também se aproxima da Antropologia:
primeiro, com o livro da psicóloga Angelina Nascimento (falecida), “Comida:
prazeres, gozos e transgressões” (EDUFBA, 2006); segundo, com a dissertação de
Mestrado, em 2012, de Larissa Ramos, “Pitadinha de Dendê: um olhar sobre a
baianidade a partir de livros da comida baiana”. Mostrando a sua produção, em 2011,
a UEFS publicou através da sua editora o livro “Antropoentomofagia: insetos na
alimentação humana", coletânea organizada por Eraldo Medeiros Costa Neto.
Já sobre a perspectiva da antropologia da alimentação afro-baiana, as bases são
lançadas por Manuel Querino e Nina Rodrigues. O primeiro, com um livro voltado
inteiramente para a cozinha baiana, intitulado “A Arte Culinária da Bahia”, que
aparece em 1922, mas já com sucessivas edições. No livro “Os Africanos no
Brasil” que só será publicado na década de 30 do século passado, Nina
Rodrigues, em menos de meia página, faz referência a algumas comidas do povo de
candomblé. Depois, além dos seguidores de Querino – de Brandão a Hidelgardes
Vianna – críticos ou não, irá aparecer em 1950, um artigo de Roger Bastide,
denominado “A cozinha dos deuses" (Candomblé e Alimentação). Mas, se este
é um texto específico, antes e após, é difícil dizer quem não tocou na comida
dos orixás: Artur Ramos, Donald Pierson, Édison Carneiro, Pierre Verger, Mestre
Didi, Juana Elbein dos Santos, Júlio Braga, Vivaldo da Costa Lima, Waldeloir
Rego e tantos outros. De outra geração e sem maior relacionamento com a
academia baiana, é incomensurável a bibliografia de Raul Lody. Por sua longa
vivência nos terreiros da Bahia, já é quase baiano. Da nova geração, aparecem
Vilson Caetano e Fábio Lima. O primeiro com uma dissertação de Mestrado na PUC
- São Paulo, em 1997, denominada “Usos e abusos das mulheres de saia e do povo
do azeite”. Em 2009 publicou em Salvador, na Editora Atalho, o livro “O
Banquete Sagrado. Notas sobre os “de comer” em terreiros de candomblé”. Já
Fábio Lima escreveu um pequeno livro sobre “As quartas-feiras de Xangô. Ritual
e Cotidiano: uma etnografia no Axé Opô Afonjá” (Salvador: Editora da Uneb,
2003). Para concluir, ainda em vida, a editora Corrupio, em 2005, conseguiu
tirar a “fórceps” e publicar o texto de Vivaldo da Costa Lima, “Cosme e Damião.
O culto dos santos gêmeos no Brasi e na África”. Estaria sendo leviano, caso
pensasse que apresento o realizado na antropologia da alimentação na Bahia.
Onde ficam unidades como Nutrição, Biologia, Saúde Comunitária, além das tantas
universidades existentes na Bahia - como a UNEB, a UEFS, a UFRB, a UFSC, e as
universidades particulares - com a sua produção?
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