Raros são os livros sobre futebol que unem história,
antropologia, psicologia e literatura. É o caso do livro do catalão Manuel
Vázquez Montalbán – autor indicado por Carlos Alberto Dória – intitulado
FÚTBOL. Una religión em busca de un dios (Buenos Aires: Debolsillo, 2006).
Falecido em 2003, com vasta obra, reconhecido internacionalmente, o livro foi
organizado por seu filho, seguindo a ordenação desejada por seu pai. Nas
primeiras 60 páginas temos um quadro completo das transformações ocorridas no
futebol europeu e espanhol, a partir das últimas décadas do século XX. O
futebol, lembra o autor, sempre nos aparece na infância, onde vemos um instante
mágico que um artista da bola consegue e torna-se para nós inesquecível.
Adiante, ele diz que pertence a era de duas drogas: o álcool e o futebol. O
álcool permanece como era, porém, o futebol perdeu a sua aura inicial,
tornando-se uma droga de desenho. Os clubes se remodelaram segundo os cânones dos
grandes centros financeiros e midiáticos; o jogo já não depende do talento
coordenado de jogadores capazes de propiciar instantes mágicos memoráveis, mas
de sistemas que levam o nome ou o apelido do treinador. Segundo Montalbán, o
campeonato mundial de 1998 terminou a era do futebol espetáculo e começou a do
futebol como religião de uma parte importante do capitalismo multinacional. A
aplicação da lei Bosman, entre outras consequências, resultou de forma imediata
que na Espanha se podia fazer uma seleção nacional só com jogadores argentinos.
Os clubes transformaram-se em legiões estrangeiras. Irônico e correto é ele
dizer que o futebol é uma religião laica na Europa pós-moderna na mão de
dirigentes que os psicólogos chamam de idade pré-lógica. Ah, se ele conhecesse
os dirigentes brasileiros! A mundialização da economia e a globalização
televisiva nos conduz ao medo de perder a identidade, com pés-de-obra sem
nenhuma identificação com nosso vinho ou acarajé. E para superar a
desindentificação, muitas vezes os clubes ou Estados recorrem a
fundamentalismos regionais ou nacionais, conducentes à violência. Choraremos
como 1950 – sem falar nas questões extra-campo – se perdermos a Copa, com o
arrogante e todo poderoso Felipão e sua legião estrangeira, apesar da renovada
repetição midiática do “prá frente Brasil”? Muita indignação sim, choro, acho
que não. Montalbán aborda as relações entre futebol, política, violência e
literatura. E após, passa a analisar com maestria os grandes nomes do futebol
antes e pós-globalização: Di Stefano, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Beckman e muitos
outros maiores e menores. Se detém com maior profundidade em Ronaldo, um deus
da engenharia futebolística ou os joelhos de deus. Já Beckham, um batedor de
bolas paradas, vale muitas vezes mais que seu futebol, pois sua mulher e sua
genética fazem com que tudo que toque vire ouro. Mas, não deixa de revelar suas
preferências: Romário, o Deus brasileiro, e Maradona, “a mão de Deus”.
Instigante e lúcida é a sua análise da história de vida do genial pibe
argentino. No entanto, apesar da densidade dos temas apontados, a tese central
do livro está contida na relação histórica entre Real Madrid e Barcelona. Uma
rivalidade imprescindível para compreensão do futebol espanhol. A divisão
secular de Castela e Catalunha ganham raízes contemporâneas com a Guerra Civil
Espanhola. Rivalidade não só de equipes, mas de povos: o Real Madrid
representando o franquismo e o Barcelona, sendo identificado como o exército
simbólico desarmado da nação catalã. É leitura obrigatória e da boa, por mim
simplificada, de um grande craque das letras.
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