Uma rica história possui o futebol da Bahia. Apesar de, até
então, ter sido esquecido pela Academia baiana, agora, graças ao espírito
empreendedor da Diretora da EDUFBA, Dra. Flávia Goulart, nasceu a coleção É
Futebol, iniciada com 4 livros, que serão lançados em breve, e serão o tema
deste texto.
Gingas e Nós. O Jogo do Lazer na Bahia” - Jeferson Bacelar
Já se
passaram 25 anos quando este livro foi realizado. Em 1991, ele foi publicado
pela Fundação Casa de Jorge Amado, com um generoso prefácio do amigo Antonio
Risério. O futebol e a Boca do Rio, um bairro popular de Salvador, foram e
continuam a ser minhas grandes paixões. O futebol, óbvio, minha maior fonte de
lazer e onde encontrei grandes amizades, muitas – exceto as que já estão
batendo um baba lá no Orum – mantidas até hoje; a Boca do Rio, por ser um local
paradisíaco na minha juventude e mesmo na maturidade, com grandes amigos de
futebol e farras. Como eu digo no livro, bons companheiros. Na época, excetuando Roberto da Matta e uns
poucos autores, pouco existia sobre futebol, e o que existia tratava do futebol
profissional. Eu resolvi escrever sobre o “baba” (a pelada carioca e outras
denominações pelo Brasil afora) na Boca do Rio. Terminou sendo um misto de
antropologia urbana e do futebol. O bairro, a cidade, discriminação de classe e
raça, luta e conquista, violência, festa, sofrimento e alegria. O baba é aberto
a muitas leituras, onde a cultura pode aparecer como reprodução social e
resistência. O baba é duro, como é dura a vida, onde os trabalhadores, plenos
de derrotas e frustrações na vida cotidiana, descobrem nele, a possibilidade de
serem vitoriosos e de se realizarem pessoalmente. Nessa edição, além de um mais
que generoso prefácio de Cláudio Pereira, aparecem mais fotos do baba e da
festa realizada em minha homenagem pelo
livro, além de um posfácio, sobre alguns aspectos concernentes ao livro e ao
futebol, além de lembranças dos jogadores e amigos da Boca do Rio.
“Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924) – Henrique Sena dos Santos
Eu sempre pensei que a Bahia, por sua decadência política na
Primeira República, ausência de dinamismo econômico no período, além de sua
configuração econômica, tinha especificidades que se refletiam na formação e
desenvolvimento do futebol. Estava certo. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde
a presença de negros e pobres só ganha participação maior, e consistência, na
década de 1920, na Bahia, a Liga dos Brancos, racista e classista, não dura nem
10 anos. Criada em 1904, cedo com a participação de clubes populares, os clubes
de elite começaram a retirar-se. Assim, em 1913, os pretos, mestiços e pobres,
não deixaram o futebol morrer, criando uma outra liga. Os jogos eram no Campo
da Pólvora e no Rio Vermelho, então, em 1921, as elites pretenderam “civilizar”
o futebol, inclusive criando o estádio da Graça. Os brancos “dançaram”, já era
tarde, o futebol dentro e fora de campo já era do “povão”. O autor descortina a
participação da Bahia no futebol nacional, apesar do menosprezo da então CBD. É
aí que aparece a figura ímpar de Popó, “o preto de ouro”. É um livro sólido
teoricamente, com farta documentação e rica iconografia. Henrique, com
maestria, oferece uma leitura agradável, onde, assim como Popó, construiu um
jogo “cheio de reviravoltas”.
“Futebol feminino na Bahia nos anos 80 e 90: fazendo gênero e jogando bola” – Enny Moraes
Se é mínima a bibliografia baiana sobre o futebol masculino,
imagine-se sobre o futebol feminino. Portanto, é um marco o livro de Enny sobre
o futebol feminino. De Nelson Rodrigues a João Saldanha, futebol era coisa de
macho. E quando começou a aparecer o futebol feminino, vinha o outro lado do
preconceito: era coisa de “sapata”. Quanto sofreram nossas meninas, como mostra
esse belo livro, até que, apesar de todo descaso da CBF, o Brasil formasse uma
seleção que está no ranking das melhores do mundo. A autora aborda a formação
das jogadoras baianas, desde Jequié, mas em especial em Feira de Santana.
Preconceito, discriminação, na família e na sociedade, muito sofrimento, até
que fossem respeitadas e ganhassem credibilidade, nas conservadoras e machistas
cidades do interior da Bahia. Através de histórias de vida, a autora retrata as
dores e alegrias das jogadoras. E, a partir daí, a história do futebol da Bahia
se entrecruza com os primórdios da Seleção Brasileira. Ganha realce a a
trajetória de vida de Solange, a “Soró” (de Luciano do Vale), convocada para a
Seleção Brasileira, após testes em Salvador. Uma vida de lutas, de indecisões,
de uma guerreira que teve que enfrentar até mesmo a discriminação das jogadoras
baianas convocadas. Precedendo a geração de Marta, tiveram contra si os baixos
salários, a invisibilidade, além de absurdos da CBF. O fundamental é que foram
jogadoras, como Solange, que construíram, apesar de todos os percalços, as
bases para as atuais conquistas do futebol feminino brasileiro. Enny, joga um
bolão com seu texto, pelo ineditismo, pelo valioso conteúdo, rigor teórico e
metodológico, envolvendo e emocionando o leitor, com um mínimo de
sensibilidade.
“BA-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas” – Paulo Leandro
O
autor, adiciona à sua carreira como
reconhecido comentarista esportivo, a sua categoria como acadêmico. Paulo
Leandro discute a institucionalização da torcida de futebol nas páginas
esportivas de jornais de Salvador, Bahia, no período de 1932 a 2011. Utilizou
como corpus uma coleção de 326 textos de cobertura de jogos entre Bahia e
Vitória, confronto que ficou conhecido como BA-VI. Os torcedores escolhem as
cores que correspondem ao time, posicionam-se em um mesmo local e, por meio do
consumo de indumentária e símbolos identificados a um clube, sentem-se
pertencentes à comunidade imaginada, formando uma só alma global. A torcida é
identificada como um grupo capaz de alcançar uma sensação descrita pelos
jornalistas como “delírio” e que corresponde a um êxtase na atitude de torcer
coletivamente por um time de futebol. A bibliografia sobre torcidas no
Brasil já é ampla, do ponto de vista
histórico e teórico, porém, não é o caso
da Bahia, daí a importância do livro. Com base nos resultados da pesquisa,
pode-se dizer que os jornais fazem parte da realidade que institui a torcida,
no sentido de agentes transmissores de informações, valores e princípios de
inegável influência para a formação do perfil do grupo. Concluindo, por sua
vivência no futebol, já antevê e questiona as mudanças no futebol e nas
torcidas no reinado das “arenas”. É um livro para os rubro-negros e tricolores,
onde, com densidade, o leitor, quase sempre torcedor, também chegará ao
“êxtase”.
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